ops, ops, mil vezes ops!

Hoje não vai ter texto. Por motivos de: caiu a ficha. E ela pesava uma tonelada. E caiu sobre o dedo minguinho. E a unha estava encravada. E a ficha rolou, rolou, rolou e caiu no ralo. Entupiu o cano, inundou a vida.

Calma, calma, sem exageros! Foi uma iluminação, sim, mas bem simplinha. Poderia ter passado batido, não fosse eu um cabeção.

É o seguinte... 

...quem me conhece sabe que segunda é meu findisemana. No meio da tarde coloco a raqueteira nas costas, caminho uma hora até a quadra e passo outra hora brincando como criança imitando meus heróis: Bjorn Borg, Bóris Becker, Federer; todos super-homens. Só não imito o Guga porque ele é tão genial, mas tão genial, que até parece humano.

Depois da brincadeira, caminho até a Stereophonica e, pelo preço de um café com leite, faço os autógrafos da semana. Baita findisemana esse meu! Só coisas legais: caminhada, tênis, café e conexão caligráfica com os De Fé. Num passe de mágica, todo o tédio dos hotéis, ônibus e aeroportos do fim de semana real é retirado do meu sistema.

Pois bem, hoje não rolou jogo por motivo de: eu tinha uma consulta médica. 

Cheguei pontualmente na hora marcada e a secretária, educadamente, falou: "por favor, aguarde um instante, sr. Humberto, vou tentar um encaixe". Encaixe?!? "Sim, sua consulta está marcada para a segunda da semana que vem". 

Caramba! Atrasos e confusões de horário são normais na vida de qualquer um, né? Mas não na vida deste capricorniano imbecil que vos escreve! Deve haver algo aí...

Disse para a secretária que não precisava se incomodar, voltarei semana que vem. Quando se trata de saúde, a tese deste escriba medroso é "nunca faça hoje o que puder fazer amanhã"; ou, como dizem os gringos: "if it ain't broke, don't fix it" (ok, ok, esqueçam que eu disse isso - brincadeirinha - prevenção é tudo!).

Quando estava esperando o elevador para sair do prédio, tocou o celular: era meu parceiro de tênis perguntando por que eu não havia aparecido. Quem joga sabe que faltar à pelada é pecado capital e eu, putz, havia esquecido de avisar que não poderia jogar hoje.

Resumo do dia: não fui aonde deveria ir, estava onde não deveria estar. Sinais claros de: tô com a cabeça muito cheia de coisas! Caiu a ficha. Resolvi dar um tempo, hoje não faço mais nada, nem este texto. 

bah: Cheguei em casa, peguei a sanfona, sentei em frente à janela e fiquei testando algumas ideias para minha participação na gravação do DVD do Duca. Os shows serão nos dias 11 e 12 de novembro. Com certeza, a data é esta... mas... será 2014?

Abraços!  
Semana que vem voltaremos com a programação normal. 

vícios de linguagem - 169

tudo se resume
a uma briga de torcidas
e a gente ali no meio
no meio das bandeiras

o jogo não importa
ninguém tá assistindo
e a gente ali no meio
no meio da cegueira

tudo se reduz
a um campo de batalha
e a gente ali no meio



tudo se resume
à disputa entre partidos
lama na imprensa
sangue nas bandeiras

a verdade passa ao largo
como se não existisse
e a gente ali no meio
como se não existisse

tudo se reduz
a uma cruz e uma espada
e a gente ali no meio 



tchê, de que lado tu estás?
ninguém pode agradar aos dois lados
hey, it's time to make a choice
we all want to hear your voice (it's true)
faça a sua aposta, tome a sua decisão



tudo se produz
na mesma linha de montagem
apogeu e decadência
na mais nobre linhagem
votos de silêncio
vícios de linguagem
nada traduz



hey, don't you know that you are
in the middle of a war (yes, you are)
tchê, de que lado tu estás?
ninguém pode ficar no meio do tiroteio
now it's time to say whose side you're on 


tudo se presume
se resume, se reduz


e o principal fica fora do resumo

(Vícios de Liguagem, 1995)

Quis o destino que eu gravasse estes versos em Los Angeles e que as incríveis Waters Sisters fizessem os backing vocals. Pra evitar o estranhamento do inevitável sotaque delas cantando em português, optei, na última hora, por passar algumas frases para o inglês. Por simetria, radicalizei também para o outro lado, usando o tú e o tchê  característicos dos gaúchos.

Na canção Lado a Lado, do mesmo disco, dois cantores americanos igualmente incríveis fizeram o coro. Neste caso, me agradou a bandeira que o sotaque dava quando eles cantavam em português. A dificuldade gringa de cantar o nosso “ÃO”, entre outras coisas, me soava interessante. Cada caso é um... 


(*)

Às vezes, manter as diferenças, entendê-las e tentar harmonizá-las, me parece mais adequado do que a ilusão de uma linguagem comum. Mas tem que ter a manha pra saber quando a possibilidade de uma linguagem comum é mesmo ilusória. E quando é possível harmonizar diferenças.



Ao contrário da linha reta, numa ferradura, os extremos estão mais próximos entre si do que do centro. Será que vale usar essas figuras geométricas simples como analogia para o complexo espectro político? E qual delas representaria melhor, a que aproxima ou a que distancia os extremos?

Gosto do sangue quente dos extremistas, mas a falta de sutileza me cansa. Gosto do sangue frio dos centrados, mas a falta de sonhos me cansa. O jeito é seguir tentando, errando e tentando novamente pois a vida não oferece soundcheck antes do show.

souncheck
ou
passagem de som
ou
prova de som
sempre
1, 2,
alou, alou,
1, 2
tesssste...
não quero seduzir
teu coração turista
não quero te vender
o meu ponto de vista

eu tive um sonho
há muito não sonhava
lembranças do  futuro
que a gente imaginava

nem sempre foi assim
outro mundo é possível
pode até ser o fim 
mas será que é inevitável?

não vá dizer que eu estou ficando louco
só por que não consigo odiar ninguém
do goleiro ao centroavante
do juiz ao presidente
eu não consigo odiar ninguém

( Não Consigo Odiar Ninguém, 2006 )

abraços
14out2014

andamento (168)

Como assim?!? Dei o último CONFIRMA, a urna apitou e... nada mudou! Cadê o paraíso prometido? Ah, entendi: este apito não anuncia o fim mas, sim, o início de um jogo. E a política institucional não é a única - talvez nem a mais poderosa - ferramenta de transformação. Sim, a mudança se constrói aqui embaixo, dia a dia, num jogo sem início nem fim, que tá sempre rolando.

Os processos sociais, às vezes, são frustrantemente lentos, cheios de idas e vindas, avanços e retrocessos. Há que persistir na caminhada, valorizando cada pequeno avanço, relativizando inevitáveis tropeços.

Mas, sem exageros nessa paciência, né? A desculpa de que somos uma democracia incipiente tá perdendo o prazo de validade. Se ficar tudo para o "porvir", o papo deixa de ser político para entrar na seara das promessas religiosas. Melhor não misturar, a César o que é de César e...


Tive que me valer da memória na hora de digitar os números certos na urna pois, como tenho feito cada vez mais, sai de casa sem meu celular. Um fato prosaico que, junto a outros que tenho notado (tenho passado mais tempo sem óculos, comprei um teclado mono e analógico), sinaliza vontade de achar meu próprio tempo nessa correria insana. Achar meu tom nessa gritaria absurda.

Assim como as canções soam melhor num determinado andamento e tom mesmo que possamos tocá-las mais rápido ou mais lentamente, gritando ou sussurrando. Velocidade para ir aonde? Certeza absoluta de quê? É uma ilusão achar que podemos processar toda informação que passa por nós. E informação não processada, o que é? 

Há alguns meses, a produção do DVD inSULar me obriga a estar conectado o tempo inteiro, decidindo coisas com a equipe. Na reta final, resolvemos colocar no pacote um CD, o que prolongou um pouco o período de trocas de emails que, por vezes, invade a madrugada. Mas agora a sorte esta lançada, os discos estão na fábrica. Posso me dar ao luxo de tirar os óculos e ignorar as notificações de mensagem do celular. Desacelerar. Só assim pintam novas ideias para que siga o jogo sem início nem fim.

Pois é, quem diria?, virou um luxo decidir (como nas canções) a velocidade e o tom das nossas vidas. Não abdicar da escala humana; nem pra mais, nem pra menos. Tentar unificar o que queremos, podemos e precisamos falar e ouvir, fazer e sonhar. Um luxo maior do que ter o mais veloz e potente smartphone.

(*)

bah 01: sim, também acreditei que máquinas mais velozes estavam economizando meu tempo. Até começar a desconfiar que elas nos hipnotizam e nos fazem querer cada vez mais, correr cada vez mais rápido em direção ao... novo processador mais rápido.

bah 02: o DVD chega em novembro.

um abraço
a seu tempo
07out2014

vôos e voos - o que muda e o que permanece (167)


Pela janela do avião, o horizonte parece o mesmo de sempre (se chamarmos de "sempre" o período relativamente curto de 30 anos no qual sou um viajante aéreo constante). 

Hotéis, estrada, aeroportos... assim quis minha arte/ofício. Ao lado de um milhão de coisas legais, um pequeno efeito colateral indesejado: minha paciência para viagens tá sempre no limite. Nas férias (férias?!? o que é isso?!?), evito viajar, o que deixa Adriane e Clara sozinhas nos tradicionais passeios que mulheres geralmente fazem com marido e pai. Mas... tudo bem, não chega a arranhar nosso imenso bem querer.

Entre uma mirada e outra pela janela, caio em rápidos cochilos estimulados pelo horário e rotina caóticos de um músico em tour. Cacos de sonho fragmentado misturam idas e vindas, origens e destinos, diferentes tours, novos e antigos companheiros de jornada... harmonizando coisas que, estando desperto, pareceriam incompatíveis.

A soneca é interrompida pela voz distorcida do piloto que, ao avisar que logo pousaremos, aproveita para lamentar a fumaça das queimadas que se enxerga sangrando o horizonte. Outra visão que, infelizmente, não parece mudar nessa região.

Do lado de dentro da janela, os procedimentos de apertar o cinto e retornar o encosto da poltrona para a posição vertical são os mesmos de "sempre". Mas muita coisa mudou; por exemplo: já não se fuma a bordo. Lembro de como era surreal poder fumar da fileira 01 à 15 e ser proibido da 16 à 30. Como se fizesse diferença para quem sentasse num ponto fronteiriço entre os 2 mundos, como se a fumaça respeitasse geometrias cartesianas.

Desapareceram também os jornais que eram distribuídos num carrinho que a gente torcia que chegasse até nossa fileira antes de acabar a pilha do jornal mais legal. Em tempos anteriores às - agora onipresentes - telas digitais, era o que tínhamos para mascarar a lentidão da passagem do tempo em voos longos. Em tempos pré-www era muito interessante, a cada escala do voo, receber os jornais locais; sacar o que mudava e o que permanecia igual em cada região desse país continente.

Há, ainda, a constatação de que voar ficou mais acessível, o que é uma boa mudança. Como efeito colateral, aumentou o desconforto físico em aeronaves e aeroportos com cada vez menos espaço. Mas o lance é cobrar melhorias das estruturas e do serviço em vez de reclamar que uma parcela da população, antes excluída, agora está inserida nesse universo, né? 

(*)

Saber dançar, surfar, entre o geral e o particular, entre macro e micro, entre o que muda e o que permanece é fundamental para manter a sanidade mental. Cabeça nas nuvens e pés no chão! Olhar para longe, para o horizonte imutável, quando o caos do dia a dia quer nos drenar para o ralo da insignificância; mergulhar na agitação do cotidiano quando uma visão muito atemporal ameaça nos deixar apáticos e paralisados.



Domingo teremos eleições, né? Desejo a todos um voto inspirado. Realista e otimista, se for possível (como nos cacos dos meus sonhos aéreos) harmonizar estes pontos de vista.

Não se deixem contaminar pelo baixo astral intolerante que pinta a cada quatro anos. Ele é só um pequeno efeito colateral indesejado de algo com um milhão de aspectos bacanas: a chance de escolher. Tentem não sonhar o sonho dos outros nem sonhar sozinhos. E boa sorte para todos nós nesse novo trecho da viagem!

estamos no mesmo barco
sob a mesma lua 

30set2014

(166)

Resolvi aprender a tocar bateria. A parte mais difícil da primeira aula foi explicar ao professor por que. Sem saber ao certo, descartei a perspectiva de fazer uso profissional dos novos conhecimentos e engatei uma comparação precária com o grande tenista Ivan Lendl que, já bem sucedido na sua arte/ofício, fez aulas de ballet - certamente não para virar bailarino, só para melhorar sua movimentação na quadra.

Falei isso ainda sem saber se era por isso mesmo que estava ali. Não acho que, a essa altura do campeonato, o estudo de bateria melhore meu senso rítmico ou coordenação motora. Nem sinto necessidade de tal. Estou bem comigo.

Na caminhada de volta pra casa segui pensando... adoro pensar nos porquês mesmo que raramente chegue a alguma conclusão definitiva. Certamente a diversão é um ingrediente importante da nova empreitada. Tô achando ótimo tocar bateria junto com meus discos favoritos, coisa que nunca fiz com baixo, guitarra, etc...

Mas também me parece haver um motivo mais profundo: quero cada vez mais aumentar o foco e resistir à força centrífuga que, sinto, tem afastado músicos da música. Há uma mistura de dispersão e abatimento no meio autoral com a falta de espaço, de atenção, de oportunidades, de respeito... Mas sabe como é, missão não se escolhe. Então, mãos à obra.

Não tô interessado em canalisar minhas energias para outras coisas (culinária, turismo, futebol, economia doméstica ou global, política humana ou empresarial...) nem me seduz a possibilidade de algum brilhareco polêmico viral na www. Não enquanto eu puder ficar tentando tocar bumbo e caixa no tempo justo.

E já tá valendo a experiência: nos papos com mestre Luke, entre um exercício e outro, ouvi uma anedota interessantíssima; essa:

Um baixista se aposenta após cinquenta anos de atividade numa orquestra sinfônica. Depois do último ensaio, coloca o baixo no estojo e vai pra casa. Chegando lá, toca a campainha e a mulher com quem é casado desde a juventude abre a porta. Olhando o case, ela pergunta "O que é isso?". "Um baixo", ele responde. E ela, impaciente: "Ah, não! O que tú tá inventando com esse negócio de baixo a essa altura da vida?!?".

Tão perto, tão longe.


uma ótima semana para todos
16set2014

a árvore e a floresta (165)

Grandes escritores, cineastas, poetas, compositores... artistas em geral, em seus melhores momentos, conseguem fundir o geral e o particular. Falam de uma geração através de um personagem, do mundo através da aldeia. Oferecem visões simultâneas da árvore e da floresta. 

Ah, como precisamos deles! Não para fazer nossas cabeças pois, se somos tão vazios a ponto de não ter opinião, não será a opinião de outrém que irá nos preencher. Mas precisamos das intuições desses caras, da luz por vezes difusa, por vezes ofuscante, que eles produzem.

Ainda mais em tempos fragmentados como os que vivemos. Cada situação tem uma dimensão humana pessoal, específica, e outra simbólica, comum a uma coletividade. Ficar só numa delas, generalizando tudo ou só fulanizando, nos deixa igualmente incompletos.  

(*)

A tela do meu computador andou sombria por esses dias.  Imagens de barbárie pareciam chegar a cada clique. Numa delas, um jornalista está ajoelhado, vestindo um macacão cor de laranja prestes a ser degolado por alguém com o rosto coberto ( não sei se a cena estava disponível, não cliquei ). Li várias análises políticas, religiosas, sociológicas a respeito, mas nenhum discurso descrevia o que vi naqueles dois pares de olhos.

(*)

Em outro momento, o noticiário da TV mostrava, através da câmera de segurança de uma casa noturna, as últimas imagens de uma jovem que, dias depois, seria encontrada morta. Ela saia do local com um homem, agora, principal suspeito do crime. Ao abrir a porta, a mulher fechou o casaco para se proteger do frio que vinha da rua.

Este gesto trivial de alguém se protegendo do frio enquanto ignorava estar desprotegida de um risco infinitamente maior ficou na minha mente; sem que eu conseguisse dar significado nem esquecer. Como uma árvore que não me deixa enxergar a floresta.

(*)

Meus dedos, quase por reflexo, digitaram o canal da rádio NET. Caiu numa estação dedicada aos Beatles. Tocava uma canção falando de um Padre McKenzie a escrever sermões que ninguém ouviria e de uma tal Eleanor a cujo enterro ninguém compareceu... ah, look at all the lonely people! where do they all come from? all the lonely people... where do they all belong?



9set2014

de novo (164)

Não sei se é fato ou lenda que os índios, nativos americanos, não tenham percebido a chegada das caravelas europeias à costa por serem coisas estranhas ao seu universo. Que tenham visto mas não tenham enxergado - não sei. De qualquer forma, é uma metáfora tão gasta quanto boa para a capacidade de sacar o novo. Há quem afirme que só se percebe quando já não é mais novo. Será? Não sei...

Talvez o novo, falado assim, sem meios tons, só exista em inexistentes condições ideais de temperatura e pressão. Aqui, nessa bolinha azul aparentemente à deriva no cosmos, talvez a gente deva se acostumar à mistura permanente do velho com o novo com o mais novo ainda, como uma bolota de massinha de modelar de cores diferentes mas inseparáveis.

Enquanto isso, dá pra se divertir um pouco com a pomposidade das análises equivocadas. Quando pintou a onda da música eletrônica, eram deliciosamente burras as resenhas que aplicavam as mesmas ferramentas usadas para pensar o roquenrrou num outro som, feito de outra forma, para outras pessoas ouvirem de outra maneira. Fosse falando bem ou mal, era hilária a aplicação literal de conceitos que pertenciam a outro ambiente. Como se um juiz de futebol apitasse um jogo de basquete, marcando "mão na bola" a cada lance.

Acontece a cada nova onda no ambiente novidadeiro e chiliquento da música pop. É interessante observá-lo ao longo de uma fatia mais generosa de tempo, sacar como as percepções mudam sem que o objeto central - a música - tenha mudado. 

Quando pintaram as bandas punk e new wave, tudo parecia tão diferente do rock clássico! Encurtaram os cabelos e os solos de guitarra, pintou ironia nos nomes (uma banda chamada Polícia, imagine! Impossível em Woodstock). Passado o tempo, tudo que se considerava inédito esmaece e as semelhanças com a tradição se ressaltam. Police deixa de ser o oposto de Cream (se irmanam na fraternidade dos trios), Clash se aproxima a Rolling Stones, Sex Pistols a, digamos, Black Sabbath...

Bah: antes que pintem comentários tentando aprofundar estas comparações, já aviso que me vieram à mente sem muita reflexão, no momento em que escrevo, exemplos rápidos. Afinal, se eu fosse um crítico, racional, não seria músico. 

(*)

Acho que a palavra "novo" se meteu na minha mente numa caminhada, ontem, vendo tanta propaganda de candidatos se dizendo "o novo" na política. Afinal, queremos o novo? Qual novo? É possível conhecê-lo? E reconhecê-lo, é possível?

Bah: deixa eu cair fora antes que comece o bate-boca político. Mas deixo vocês com meu melhor emoticon:

=)


02set2014

Lato Sensu (163)

Bom senso: ou a gente nasce com ou morre sem.

Será? Reconheço que há talentos inatos e características definitivas, mas eu não colocaria o bom senso entre eles. Pelo contrário, acho que é o tipo de coisa que o tempo pode ajudar a construir. Pode ser desenvolvido. Se não por todos, ao menos por quem tem... (ops!)... bom senso.

Seja como for, nesse mundo onde o excesso (para mais e para menos) é considerado um valor em si e comedimento é geralmente visto como algo sem graça, é bom encontrar alguém com bom senso, né? Uma lufada de ar fresco em meio ao mormaço.

(*)

Há quem considere "bom senso" e "senso comum" sinônimos. Cuidado! Podem até ser, num mundo perfeito. Mas nesse, nosso, igualar estes conceitos é um passo grande demais. Em falso. Lembremo-nos que escolheram Barrabás!

Grande parte dos caras que fizeram a humanidade evoluir pensaram fora da caixinha, sonharam na contramão. Às vezes, bom senso é senso incomum

(*)

Entre espertinhos e espertalhões, num mar de espontaneismo vazio e caricato, discernimento é mais do que saber tudo: é, também, saber ignorar. Às vezes, ter bom senso é ser bem sonso.

Sentido, senhores!
censores
 sem talento sensorial
abraços
26ago2014

tenho dito (162)

Se deixei de postar algumas vezes nas últimas semanas foi para poupá-los. É que ando obcecado com a finalização do DVD Insular e, pra não aborrecê-los falando só nisso, preferi ficar quieto.

Aliás, tenho gostado mais e mais de ficar quieto. Assim como tenho gostado, cada vez mais, de beber água. O simples, o mínimo, o necessário.

(*)

Há alguns dia, fui convidado a participar de um programa esportivo na TV. Eu estava em Brasília por conta da tour. O programa, feito no Rio, ainda contaria com um convidado falando desde São Paulo.

Enquanto esperava que a equipe do estúdio resolvesse problemas no ponto eletrônico e no link, comecei a temer que acontecesse comigo o mesmo que aconteceu com a pobre entrevistada que, confusa pelo delay (o atraso entre o que se fala e o que vai ao ar), ficou repetindo sanduíche-íche-íche-íche. Viralizada na www, deve estar até agora repetindo: íche-íche-íche...

Para aliviar a tensão, pensei na ironia do destino: justo eu, um cara desde sempre quieto, tímido até para responder "presente" nas chamadas da escola, virei uma pessoa pública! A sensação de inadequação só se desfaz quando lembro do que me trouxe até aqui: a música.

(*)

Alguns dias antes eu havia sido convidado a participar da propaganda eleitoral de um partido no qual até é provável que eu vote para alguns cargos. Agradeci o convite, mas expliquei que não tô a fim. Não quero influenciar ninguém. Nem o pessoal aqui de casa.

Talvez se o cenário estivesse melhor (ou pior) eu sentisse vontade (ou necessidade) de me manifestar, como já fiz.  Não vejo isso como desânimo, mas, no momento, nah...

Os tempos são outros. Se antes era necessário espalhar informação, hoje ela está ao alcance de qualquer um com um mínimo de perspicácia. Talvez ficar quieto e deixar quem sabe falar seja a coisa certa a fazer ("talvez", tenho gostado cada vez mais desta palavra!).

O engraçado é que no convite foi sugerido que eu cantasse "eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada". Ok, todo partido deve achar que o "eles" em questão é o partido rival. Mas, caramba, a frase seguinte da canção fala em metafóricos Fidel e Pinochet! Ou seja... fala de todos, né?

Tudo bem, a sensação de inadequação se desfaz quando lembro do que me trouxe até aqui: a música.

(*)

Noto que alguns colegas gostam dos efeitos colaterais de ter seu trabalho reconhecido - a notoriedade, o vinho barato dos coquetéis e, principalmente, a possibilidade de falar muito e para muitos sobre tudo e qualquer coisa; de sexo a culinária, de cinema a futebol, de literatura a política... sem ter expertise em nenhum desses assuntos. Com a superficialidade que o mundo pop pede - ou melhor, impõe. Alguns parecem preferir isso à música. São os que, como brincávamos nos anos 80, vendem mais revistas do que discos.

Eu sei, eu sei, faz parte. O público é curiosos a respeito de seus ídolos. Eu sei, também sou fã. Mas há uma linha tênue determinando onde pára o bom senso e onde começa o excesso. Linha que muitas vezes o ego não nos deixa enxergar. Onde o simples passa a ser complicado, o silêncio vira tédio, "talvez" começa a ser considerado palavrão e água já não basta. 

19ago2014


Telegramas (161)

tô sempre escrevendo cartas
que nunca vou mandar
pra amores secretos
revistas semanais
e deputados federais


Para os companheiros da equipe Insular, eu diria: Podemos nos orgulhar do que temos entregado noite após noite da tour. Como dizem os argentinos "disfrutando e dejando todo en la cancha". Pular é fácil. O difícil é construir e subir cada degrau da escada que leva à borda do trampolim. Fiquem tranquilos, o DVD vai fazer jus.

Para o Gláucio (que está editando o video), para o Protásio (que está mixando o audio) e para a Messy (que está fazendo o projeto gráfico), eu diria: Afudeah! Tá fazendo jus! 

Para o gaúcho de bigode que, esgualepado por 7 porradas que a vida lhe deu fora dos pagos, justificou a volta ao time do coração dizendo precisar do carinho da torcida, eu diria: Que legal, meu velho, usar a palavra "carinho" num ambiente em que a valentia vazia é tida como valor absoluto.

Para a torcida que alentou o gaúcho bigodudo na sua chegada, eu diria: Que legal! Tentem manter a vibe boa mesmo quando a vida der porrada.

Aos matemáticos do sucesso alheio, eu diria que a fórmula agora é outra: 90% inspiração + 90% transpiração + ??% imponderável

Aos matemáticos do fracasso alheio, não diria nada. Mas quando ninguém estivesse olhando, eu bateria 3 vezes na madeira.

Aos de fé, eu repetiria o que disse no PSS123, no MDA45, no 6SDA e Nas Entrelinhas do Horizonte. Nah, acho que não diria nada. Eles estão ligados. 

Aos irmãos do Oriente Médio, diria: Give Peace a Chance. Mesmo sabendo que muito provavelmente eles discordassem sobre o significado de cada palavra desta frase tão curta e direta. 
Como assim, "dar"?!?  
- "Paz"?!? O que quer dizer?
- Que tipo de "chance"?!?
Parece bobagem utópica? Tudo bem, até pode ser. Mas o telegrama é meu, eu digo o que quiser. E repito: Give Peace a Chance!

abraços
aos leitores dos telegramas
que nunca vou mandar
(e carinho!
no fim e ao cabo
é disso que se trata, né?
então, táca-le pau nesse carinho!)
05ago2014

dum dum-dah-dum dum dum dum dum

Sentei no sofá com a sanfona no colo, a mão esquerda tateando os botões da baixaria enquanto a direita zapeava no controle remoto. Seriam, estes também, botões da baixaria (em outro sentido)? Não nesse caso: só estava procurando um canal para assistir a mais um jogo da Copa.

Sem me dar conta do que fazia, comecei a tocar, vacilante, a frase de contrabaixo que Roger Waters criou para a musica Money. Dum dum-dah-dum dum dum dum dum. Ela é famosa pelo grande sucesso da canção e pela singulariedade do compasso 7/4, pouco comum na música pop (pode-se ouvir uma rádio por semanas sem escutar nada que fuja ao 1-2-3-4; em algumas rádios pode-se esperar em vão a vida inteira por algo que fuja a essa regra).

Não sei quão comum é o fato de alguém surpreender-se consigo mesmo. Comigo acontece com frequência. O que pode ser sintoma de excesso (ou falta) de auto análise. 

Fiquei surpreso ao me flagrar tocando - no sofá esperando o início de um jogo qualquer - a frase de baixo de Money no acordeon. Caraca, me dei conta de que, apesar de fã desde sempre, nunca tentei tocá-la no contrabaixo! Ao menos nunca tentei emular o original nota por nota. Apesar de saber que copiar é uma forma válida de aprendizado (se não nos esquecermos jamais que estamos copiando - parece obvio, mas... olhe em volta).

Seria extremo amadorismo meu, fã e baixista, nunca ter tocado Money no baixo? Ou extremo profissionalismo? Conviver com o mistério, não querer decifrá-lo pra não quebrar o encanto seria sinal de ignorância ou de sabedoria? Será este o significado do dito existencialista "a dúvida é o preço da pureza"? 

Acho que é possível admirar sem querer copiar. Correndo o risco de extrapolar e dar um passo maior do que as pernas: acho que é possível amar sem querer possuir.

(*)

Falando em "correr", "passo", "pernas" e no "risco da racionalização das paixões": pergunte a uma centopeia como ela anda e ela tropeçará.
abraços
29jul2014

Lembranças do Circo Voador ( e do Circo da F1)

            Toquei pela primeira vez no Circo Voador no dia 25 de outubro de 1986 em um show coletivo que comemorava o aniversário da lendária casa de shows . Engenheiros do Hawaii dava seus primeiros passos fora do sul com um disco chamado Longe Demais das Capitais debaixo do braço e muitos sonhos na cabeça.
            Uma lembrança prosaica da noite: Celso Blues Boys era a atração principal mas pediu para tocar antes da gente pois queria assistir ao Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1 que, na madrugada brasileira, definiria um dramalhão mexicano que se arrastava há meses. Estrelado por Nelson Piquet e Nigel Mansell.
            Desde sempre, a cena músical alterna ciclos de generosidade e caretice. O Circo Voador (os anos 80) marcam, para mim, uma dessas fases em que público, artistas, casas de show, imprensa, etc… estão mais generosos, menos preguiçosos. Eletricidade no ar.
            Voltei a tocar no Circo Voador em 94 e 95. Em 2005 gravei ali um especial para a MTV e, em 2011, foi a vez de levar ao picadeiro outro espetáculo: o Pouca Vogal.
            Piquet já parou de correr faz tempo (até o filho dele já abandonou a Fórmula 1!) e eu sigo por aí. Pois é… acho que meu lance é mais maratona do que 100 metros rasos.
(texto a pedido do jornal Zero Hora)
24jul2014


Um Texto Só Que Não (158)

Pois a Copa veio e a Copa foi e eu sigo mixando o audio do DVD Insular...

( "Úi, que burro! Dá zero pra ele", diria o filósofo mexicano. Com razão: se estou mixando, obviamente é audio. Se fosse video, estaria editando. )

Fato é que, neste período, no mundo encantado da FIFA, nasceram alguns heróis e alguns heróis tombaram (alguns heróis nasceram E tombaram nesse período).

E eu? Sigo no estúdio. Tenho a paciência de um monge? Sou um nerd detalhista? Nah, essa etapa do trabalho é demorada mesmo. Ainda mais neste caso: 
- são 23 músicas gravadas ao vivo
- as gravadas na serra gaúcha têm cinco formações diferentes (em 3 locais distintos) 
- as gravadas em BH têm seis formações diferentes.

Acima de todas as dificuldades técnicas, reina a vontade de eternizar o irrepetível. Será possível salvar aquela performance única para sempre? Na tentativa, há muito o que decidir e executar. Há que traçar fronteiras (sempre subjetivas) entre técnica e emoção. 

Falando em fronteiras: desde cedo ergui um muro imaginário que me separa da mesa de mixagem. Vi colegas picados pelo bichinho da tecnologia de produção musical afastarem-se da saudável falta de controle que a criação artística pede. Não quis correr este risco.

Por sorte, encontrei no caminho gente bacana pra mexer nos botõezinhos, movimentar o cursor e clicar no mouse (Alexandre Master, Ronaldo Lima, Protásio Jr, entre outros).

Nesse tempo em que estou mixando o DVD Insular (das 9 às 19 por tempo suficiente para se jogar uma Copa) me orgulho de ainda não ter sentado na cadeira do técnico. Fico dois metros atrás, no sofá, dando pitacos que - imagino - às vezes são difíceis de traduzir em números frios, parâmetros precisos  e frequências sonoras.

Na espera, entre uma e outra manobra do heróico técnico de som na sua mesa mágica, andei lendo toneladas sobre a Copa (o mais recente foi um texto bacana do Carlos Maltz citando Nélson Rodrigues com propriedade). 

Li fofocas, teorias conspiratórias, táticas, escalações, palpites, flautas, teses sociológicas... Algumas coisas interessantes, outras pretensiosas (algumas pretensiosas E interessantes). 

Essa overdose de informação me tirou a vontade de falar no texto desta semana (sim, até aqui espero não ter dito nada). Mas, hey, qual seria a justificativa de postar este não-texto? Esta: sugerir que vocês ouçam música no tempo que gastariam lendo. 

Qual canção? Por quê a escolha? Bom, isso daria outro texto, né? Um verdadeiro. Ou comentários muito bacanas abaixo deste não-texto. Sou todo ouvidos.


beijos e abraços
15jul2014

queixo-me às rosas / mas que bobagem! / as rosas não falam (157)

Parece inevitável que um ano com Copa do Mundo e eleições bata todos os recordes de estereótipos e clichês. Sutileza zero. Na cobertura dos dois eventos, apesar do grande tempo à disposição, vive-se o paradoxo do aprofundamento superficial.

As telas mostram o típico alemão, o típico argentino, o típico comuna, o típico reaça... A vida real mostra que o típico não existe. É uma abstração reducionista. O poeta avisou: "de perto ninguém é normal".

Mas para quem gosta de esportes, a Copa é um prato cheio. E quem já viveu tempos em que não se podia votar sabe valorizar a oportunidade - mesmo que pipoquem, cada vez mais, questionamentos à democracia representativa. Né?


Tenho conversado muito com as árvores nas minhas caminhadas de ida e volta ao estúdio. Em tempos frenéticos como esses, elas fazem um contraponto interessante. Esquivas, não estão nas redes sociais nem têm o hábito de ler emails. Mas, apesar de nãos serem de muitas palavras, sabendo ouvir rolam boas histórias.

Algumas dessas árvores já estavam onde estão desde antes de serem abertas as ruas por onde ando. Presenciaram a transformação do chão batido em paralelepípedo e em asfalto. Testemunharam o aumento da velocidade dos carros pelo avanço tecnológico e a diminuição da velocidade do trânsito pelos engarrafamentos. 

Nada disso parece abalá-las. O mesmo não pode ser dito das temporadas de estiagem, das noites de temporal e dias de ventania, da diminuição do canteiro que as sustenta e alimenta, da passagem barulhenta de alguma retro-escavadeira mal intencionada. 

Levam uma vida mais simples que a nossa, né? Na nossa, às vezes parecem coexistir enchente e estiagem (assim como coexistem a velocidade dos carros e a lentidão do trânsito) e, por vezes, são legiões de retro-escavadeiras mal intencionadas que parecem atacar nossa alma e jugular.

Mas nessa hora, quando as ameaças estão todas perto demais, já estou na esquina do estúdio. Alguns metros a mais e estou em casa. Em paz. Fazendo música.

08jul2014

Lapidar - 156


"Sabendo onde se quer chegar já é difícil, sem saber..."

A frase pairou na fronteira nebulosa entre dois mundos (pessoal e profissional) pois o ambiente favorecia a imprecisão: estávamos em uma reunião de negócios, mas no intervalo para um café.

Ouvida em meio a um silêncio que, longe de demonstrar atenção, revelava mentes concentradas mas ausentes, a frase passou batido. Parecia mais um enunciado morno saído de livros de auto-ajuda que, geralmente, só ajudam a quem os vende.

Sintomaticamente ela acabava sem fim, reticente, deixando o ouvinte livre para projetar um final infeliz a seu gosto.

"Sabendo onde se quer chegar já é difícil, sem saber..."

Frases desse tipo tendem a ser guardadas sem muita reflexão na gaveta das verdades absolutas. E voltam à mente vez por outra. Esta, que ouvi faz tempo, a cada visita me parece menos definitiva, mais pálida e desbotada.

Desde lá, a vida tem me ensinado que não se trata de traçar um plano com perspicácia e colocá-lo em prática com paixão. Esse papo de perseguir um sonho, agarrar-se a ele com unhas e dentes, tem mais a ver com propaganda de isotônico do que com a vida real.

Sim, há que sonhar e acreditar no sonho; mas há também que desconfiar dele, não deixar a convicção transformar-se em teimosia. Fé cega e pé atrás! Sentir com inteligência, pensar com emoção! Quem disse que seria fácil?

A questão não se resume a escolher entre enxergar a árvore ou a floresta, há que enxergar as duas. E fechar os olhos! Deixar de ver, ignorar onde se quer chegar, em alguns momentos pode ajudar, pois, na real, cada passo que se dá transforma a estrada. Cada passo cria um possível novo destino.

(*)

Estou na reta final da produção do DVD Insular Ao Vivo. Dias repletos de escolhas a fazer. Na mixagem do áudio, na edição das imagens, no projeto gráfico, na busca do melhor parceiro para o lançamento... Sinto um cansaço bom por estar fazendo o que acho certo, da forma que me parece correta, cercado de pessoas legais e talentosas.

(*)

"Sabendo onde se quer chegar já é difícil; sem saber, é impossível". Será? Tem certeza?

(*)

Se, nessa manhã chuvosa de POA, me perguntassem onde quero chegar, eu usaria a mão que está livre (a outra segura uma cuia de chimarrão) para fazer um gesto vago como quem joga sementes ao vento. Uma indicação imprecisa, pois só navegar é preciso. E seguiria mateando em silêncio.

01jul2014

... (155)

"Alienado" era um palavrão nos tempos da minha adolescência. Não sei se já era antes e se continuou sendo depois. Sei que, por uma estranha coincidência, alienados eram sempre os outros, não nós! 

Alienados eram os que gostavam de disco music, não nós que gostávamos de rock! Os que gostavam de rock, não nós que gostávamos de outro tipo de rock. Os que gostavam de outro tipo de rock, não nós que gostávamos de MPB. Os que gostavam de MPB, não nós que gostávamos de MPG...

Sim, muito relativo. Como tudo que existe mais da boca pra fora do que no fundo do peito, muito relativo.

Éramos uma juventude que não havia presenciado o golpe em 64, mas vivíamos sob suas consequências. Quem vive um momento de ruptura ou é contra ou é a favor - salvo exceções que confirmam a regra. Com o tempo, surge um pessoal que se acomoda com o status quo e nem pensa a respeito (como o sapo que - dizem - se jogado numa panela de água fervente, pula; mas, se colocado numa panela de água fria posta a ferver, fica ali e morre sem se dar conta do aquecimento gradual). Era contra esse pessoal que se erguia o insulto: alienado!

Na minha turma, ninguém queria ser alienado. Com, o tempo, alguns de nós descobriu que jamais seria alienado: cabeções, não se ligar estava além das possibilidades de alguns de nós! E a capacidade de desligar a mente por um instante que seja, passou até a ser desejada. 

Jogar tênis e assistir intermináveis partidas tem funcionado, desde então, pra me deconectar um pouco. Dia desses, acompanhando a cobertura de um campeonato, vi um lance intrigante (fora das quadras): o âncora da mesa redonda fez graça avisando que iria esconder a perna atrás da mesa pois o diretor lhe avisara, através do ponto eletrônico, que não era legal mostrar a canela sem meia.

"Intrigante por que?", deve estar perguntando o prezado leitor. Ora, porque se os caras queriam mesmo fazer uma cobertura formal e estavam preocupados com a canela peluda, deveriam tirá-la de cena de forma discreta, sem piadas, né? Mas se queriam fazer uma cobertura informal, até engraçada, que deixassem a tal canela aparecendo.

Vislumbrei nessa cena irrelevante uma demonstração da característica brasileira de misturar o formal e o casual, o público e o privado, o profissional e o pessoal. Informalidade, brodagem, compadrio, conchavo... 

Talvez nosso tão falado jogo de cintura tenha nos ajudado a chegar até aqui, como molas que suavizam pancadas numa máquina mal projetada. Talvez esteja na hora de superar esta fase e crescer, né?

O quê? Só falei bobagem? Deveria ter curtido a cobertura do jogo sem pensar nisso? Sim, eu sei. Mas eu avisei, né? Às vezes desligar é um dom... que nem todos têm.



bah: hoje não tuitei nem feicibuquei esta postagem. Então, a você que chegou até aqui, vai o meu sincero: Caraca, valeu!
24jun2014

Fleuma - 154

Em meio a tantas e tão heróicas imagens da Copa, foi uma insignificante que conquistou o disputado espaço da minha atenção. Aconteceu no jogo Japão x Costa do Marfim e foi assim:

Quando o juiz apitou sinalizando o fim do primeiro tempo, a bola estava com um jogador africano que simplesmente deixou-a de lado e caminhou em direção ao vestiário. Pasmém! Sem um último toque na bola! Nem um bico de desabafo para longe, nem um toque politicamente correto para as mãos do árbrito, nem uma firula pra torcida! Simplesmente deixou-a de lado! 

Quem não está entendendo meu espanto certamente nunca jogou futebol na rua. Nestas situações, quando a mãe grita "Chega, menino! Já pra dentro tomar banho e jantar!" é impensável sair sem um último chute desaforado, sem uma derradeira tentativa de gol ou drible.

Assim como - dizem - os esquimós tem várias palavras para designar a cor branca (pudera, vivem cercados de neve!), nós, nerds futebolísticos, sabemos diferenciar vários tipos de chute: o cara pode chutar com raiva, carinho, nojo, desdém... só não pode deixar de dar um último toque na bola depois que o juiz apita o fim do jogo! Ou depois que a mãe decreta o fim da brincadeira.

Como uma coisa - a bola - tão ardentemente cobiçada um instante atrás pode ser tão prontamente abandonada?

Ok, talvez eu esteja sendo radical. Podemos considerar o gesto (ou melhor: a falta do gesto) uma louvável prova de autocontrole e profissionalismo. Assim como políticos de ideologias opostas que se engalfinham atrás de voto são capazes de fazer uma aliança no dia seguinte às eleições ou às vésperas da próxima. Ok, ok, pode ser uma louvável prova de pragmatismo e autocontrole.

Profissionalismo? Eu preferiria mais amadorismo nos dois casos. Autocontrole? Não é muito minha praia. Eu não consigo ficar sem estourar as bolhas de ar no plástico de proteção das embalagens. E tenho que sair de perto do balcão quando vejo, na portaria do hotel, uma daquelas sinetas de metal. Ah, que vontade incontrolável de bater nela! Piiiiiiiiiinnnngg...

(*)

Esse papo me lembrou a seguinte história, que ouvi do produtor Paul Ralphes: o guitarrista de uma banda (não lembro se era a banda inglesa da qual Paul fazia parte nos anos 80) chega ao estúdio com sua nova guitarra: uma Gibson semi-acústica rara e maravilhosa, comprada de um colecionador. 

Todo mundo fica babando pela guitarra e pedindo para tocar (nos dois sentidos: passar a mão e fazer soar algumas notas). Nisso, passa pelo corredor o Eric Clapton - por acaso, ídolo do novo dono da velha Gibson. Clapton entra na sala timidamente, atraído pelo instrumento, e pede pra dar uma olhada. Todo mundo acha o máximo. Caramba, Clapton! O cara! Ele vai tocar na guitarra! Yeah!

Clapton pega a guitarra, examina a madeira, olha o sêlo através do f-hole, os captadores,  as cravelhas, o braço... e todos na expectativa, que só aumenta: o que será que Clapton iria tocar? Se ele fizesse o riff de Layla -uau!-  abençoaria a guitarra!

(Na minha adolescência ninguém pegava uma guitarra sem se exibir com o riff de Smoke On The Water ou a intro de Stairway to Heaven.)

Pois depois de examinar a guitarra, delicadamente ele a devolve dizendo "Nice", dá as costas e sai. Sem tocar uma nota.
17jun2014

mãos à obra por aqui, mãos na taça acolá (153)

Depois de uma semana esperando a bola da emoção baixar, hoje fui ao estúdio iniciar a mixagem do show de BH para o DVD Insular. É bom estar com a cabeça fria nessa etapa. Talvez "necessário" seja uma palavra mais apropriada, pois "bom" mesmo é emocionar-se, deixar-se levar.

É provável que os colegas que dão mais importância às mesas de som e softwares do que às ideias e sentimentos saiam na frente na busca de um puta som. Não é meu caso. Mas, não se trata de uma corrida, né? E mesmo nas corridas, há sempre a chance de, como na fábula, a tartaruga vencer a lebre.

O vento que infla minhas velas para atravessar o monótono mar de botões e menus é a vontade de ver o trabalho pronto, chegando às pessoas. Esse momento mágico, no caso de um projeto ao vivo, é como um retorno. Volta para casa, para as mãos de quem participou da gravação ou acompanhou a jornada mandando boas vibrações. 

Na caminhada para o estúdio, as obras inacabadas da cidade e as onipresentes propagandas com jogadores lembraram-me a todo momento que a Copa está aí. Torci contra a candidatura do Brasil para sede. Hoje torço para que tudo transcorra sem problemas (os jogos e as manifestações que, por sua lógica, quererão aproveitar o momento de maior exposição midiática - acho saudável que o contraste entre o fantasioso mundo do futebol empresarial globalizado e nossa sofrida realidade tenha saltado aos olhos de todos gerando até momentos de humor involuntário como na embaraçosa propaganda de cerveja dizendo que não vai haver Dia dos Namorados no mesmo ambiente em que circula o slogan  "não vai ter Copa". Rir pra não chorar...). 

A TV pendurada na parede do bar onde parei para comprar uma garrafa d'água mostrava cenas de Copas passadas. Lembrei que as mixagens do Longe Demais das Capitais se deram durante a Copa de 86. Quanta coisa mudou! Quanta coisa segue igual!

Sim, meus jovens, perambulo em volta de mesas de mixagem há mais tempo do que muitos de vocês têm de vida. Isso me deixa mais seguro? De modo algum! É sempre a mesma sensação de estar começando do zero. Mais uma vez pela primeira vez. Cada projeto tem seus mistérios e suas vontades, cada disco faz alguns convites e recusa algumas ofertas. 

Enquanto caminhava na neblina desta manhã porto-alegrense, minha mente passeava pelos igualmente nebulosos (mas muito menos lineares) caminhos da memória. O estúdio em que estou mixando o novo trabalho é o mesmo em que mixei minha primeira demo (da música Engenheiros do Hawaii, A Canção, em 85). Quanta coisa mudou! Quanta coisa permanece igual! 

Passarei assim as próximas semanas: alguns dias envolto nas nuvens da minha arte/ofício; outros dias iluminado pelo sol da minha arte/ofício. Peço desculpas se o papo ficar repetitivo por aqui. É o que de melhor posso fazer para quem gosta da minha arte/ofício: manter foco total na reta final de produção do DVD Insular

E fazer o melhor na insignificância do nosso cantinho no cosmo vale mais do que qualquer bravata, por mais grandiloquente que seja, né?

(*)

bah: abaixo, na minha opinião e em ordem, os candidatos ao título de 2014 (critérios puramente técnicos - se é que isso existe):



10jun2014