Pela primeira vez, a virada de segunda para terça chegou sem que eu tivesse escrito algo com antecedência, com início meio e fim (não necessariamente nessa ordem). O tempo, esse brincalhão, parece saber quando estamos na correria e, só de sacanagem, também apressa o passo. Anda maís rápido quando a gente mais precisaria fazê-lo render.
Não me faltaram ideias nem vontade de desenvolvê-las, mas ah, cadê foco? E tempo? Do tempo, já falei - o danado parece esconder-se de propósito.
Para mentes 100% racionais que não param de ligar causa e efeito, tudo tem uma explicação, conhecida ou não. Não me incluo neste time, mas arrisco uma explicação para o vacilo deste texto vacilante: o disco que estou finalizando.
Parece bobagem, né? Mas o danado do INSULAR tem drenado minhas energias, o que deixa este capricorniano muito mais feliz do que cansado. Todo o resto perde força quando a gente tá concentrado em materializar algo que sonhou. Eu, pelo menos, sou assim com minha música. O sono, o jogo de tênis, o coffe break, tudo mais fica suspenso até que as ideias e emoções ligadas ao disco dêem uma folga.
Já conversei a respeito com colegas que agem de maneira oposta: em vez de mergulhar (pra dentro, se tal é possível), abrem-se ao mundo quando estão compondo e gravando. Gostam de ouvir várias opiniões e de se inteirar sobre o que está acontecendo por aí. Eu, nem pro pessoal de casa mostro o material antes de estar muito próximo de pronto. São dois caminhos igualmente válidos, apesar de opostos. Talvez o deles seja melhor para quem quer evitar erros e o meu seja melhor para quem quer acertar - sem esquecer que, quando se fala de arte, é uma questão sempre indefinida o que seja erro e acerto.
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Nas gravações d'O PAPA É POP, recebi a visita de um grande músico que gravava no estúdio ao lado. Conversa vai, conversa vem, notei que ele olhava com estranheza para as paredes onde eu havia colado várias fotos e
posters (eram tempos pré-interntet onde nosso imaginário visual era todo de papel). O olhar do colega se fixou num canto da parede onde eu havia colocado a ordem das músicas do disco e um cronograma de gravações. Não demorou para que ele ficasse zoando do meu excesso de zelo. Tinha razão, o companheiro. Mas não toda.
Respondi às ironias dizendo que sabia de cor e até acreditava em todo o
blah blah blah sobre espontaneidade (no fim das contas, esta é a nossa matéria-prima: sensibilidade, sim; burocracia, não). Mas contra-ataquei argumentando que disciplina é liberdade. Há quem confunda espontaneidade com preguiça de pensar um palmo adiante. Apesar dos meus gráficos e cronogramas, era eu que virava noites e emendava dias ao sabor da inspiração enquanto ele, pretensamente livre, gravava em horário comercial com pausa todo dia à mesma hora para um lanche.
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No voo que nos trouxe de volta das gravações do SIMPLES DE CORAÇÃO, enquanto todos rememoravam experiências de Los Angeles - jogos de beisebol, lojas, restaurantes,
table dancing... - eu só conseguia lembrar de ter chorado escondido no estúdio vazio ao ouvir a primeira mix de
Hora do Mergulho. Poderia ter gravado o disco em Marte e a lembrança seria a mesma.
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É na reta final que as coisas ficam mais delicadas. A tinta prestes a secar. A argila solidificando. Entre infinitas possibilidades, é hora de escolher uma mixagem que ficará "oficializada" e será ouvida um monte de vezes por um monte de gente. Mesmo que saibamos que as músicas são seres vivos, em permanente mutação. Nenhuma versão é final.
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Em 19 discos e 4 livros (e já não sei mais quantas canções) aprendi algumas coisinhas sobre o (meu) processo criativo. Já sei que sempre pinta uma reviravolta no caminho. E não adianta tentar prever, pois aí não seria reviravolta, né?
Parece repentina mas são sementes que germinaram lentamente no inconsciente enquanto outro canteiro era regado. Só esperavam a hora certa para tomar conta do jardim. Sempre pinta viração. Às vezes sutil - uma brisa trazendo aromas de outros outonos - às vezes vendaval radical.
Esta semana, entre outras coisas, pintou uma música nova que abrirá o disco e gravei sons de um rebanho de bezerros recém desmamados. Não, senhores, não se trata de um disco sertanejo, é que o som dos bichos nesta situação é blues pra caramba!
Acho que isso explica a falta de tempo/foco para um texto com início meio e fim. Então, ficam essas linhas mais como um pedido de desculpas a quem chegou até aqui (no texto). E um agradecimento (a quem passou por todas as postagens): fiquei sabendo que, semana passada, esta nossa esquina na www ultrapassou um milhão de visitas.
Sinceramente não sei o que significa este número. Imagino que não seja algo para se pavonear no mundo corporativo (nos blogs de grandes portais, vinculados a canais da midia tradicional, jornais, rádios, TVs…) ou nos blogs de temas polêmicos (futebol, política). Mas aqui, no nosso cantinho, acho significativo chegar à mística dos 7 dígitos.
Quem diria!?! Sempre escrevo pensando em uma pessoa só. Sem saber quem ela é.
última edição do Guiness Book
corações a mais de 1000
?e eu com esses números?
5 extinções em massa
400 humanidades
?e eu com esses números?
solidão a 2... dívida externa... anos luz
aos 33 Jesus na cruz
Cabral no mar aos 33
e eu
?o que faço com estes números?
mega ultra híper micro baixas calorias
kilowatts... gigabytes
traço de audiência
tração nas 4 rodas
e eu
?o que faço com estes
números?
7 vidas, mais de 1.000 destinos
todos foram tão cretinos
quando elas se beijaram
a medida de amar é amar sem medida
preparar a decolagem
contagem regressiva
a medida de amar é amar sem medida
Valeu a companhia!
23abr2013