(166)

Resolvi aprender a tocar bateria. A parte mais difícil da primeira aula foi explicar ao professor por que. Sem saber ao certo, descartei a perspectiva de fazer uso profissional dos novos conhecimentos e engatei uma comparação precária com o grande tenista Ivan Lendl que, já bem sucedido na sua arte/ofício, fez aulas de ballet - certamente não para virar bailarino, só para melhorar sua movimentação na quadra.

Falei isso ainda sem saber se era por isso mesmo que estava ali. Não acho que, a essa altura do campeonato, o estudo de bateria melhore meu senso rítmico ou coordenação motora. Nem sinto necessidade de tal. Estou bem comigo.

Na caminhada de volta pra casa segui pensando... adoro pensar nos porquês mesmo que raramente chegue a alguma conclusão definitiva. Certamente a diversão é um ingrediente importante da nova empreitada. Tô achando ótimo tocar bateria junto com meus discos favoritos, coisa que nunca fiz com baixo, guitarra, etc...

Mas também me parece haver um motivo mais profundo: quero cada vez mais aumentar o foco e resistir à força centrífuga que, sinto, tem afastado músicos da música. Há uma mistura de dispersão e abatimento no meio autoral com a falta de espaço, de atenção, de oportunidades, de respeito... Mas sabe como é, missão não se escolhe. Então, mãos à obra.

Não tô interessado em canalisar minhas energias para outras coisas (culinária, turismo, futebol, economia doméstica ou global, política humana ou empresarial...) nem me seduz a possibilidade de algum brilhareco polêmico viral na www. Não enquanto eu puder ficar tentando tocar bumbo e caixa no tempo justo.

E já tá valendo a experiência: nos papos com mestre Luke, entre um exercício e outro, ouvi uma anedota interessantíssima; essa:

Um baixista se aposenta após cinquenta anos de atividade numa orquestra sinfônica. Depois do último ensaio, coloca o baixo no estojo e vai pra casa. Chegando lá, toca a campainha e a mulher com quem é casado desde a juventude abre a porta. Olhando o case, ela pergunta "O que é isso?". "Um baixo", ele responde. E ela, impaciente: "Ah, não! O que tú tá inventando com esse negócio de baixo a essa altura da vida?!?".

Tão perto, tão longe.


uma ótima semana para todos
16set2014

a árvore e a floresta (165)

Grandes escritores, cineastas, poetas, compositores... artistas em geral, em seus melhores momentos, conseguem fundir o geral e o particular. Falam de uma geração através de um personagem, do mundo através da aldeia. Oferecem visões simultâneas da árvore e da floresta. 

Ah, como precisamos deles! Não para fazer nossas cabeças pois, se somos tão vazios a ponto de não ter opinião, não será a opinião de outrém que irá nos preencher. Mas precisamos das intuições desses caras, da luz por vezes difusa, por vezes ofuscante, que eles produzem.

Ainda mais em tempos fragmentados como os que vivemos. Cada situação tem uma dimensão humana pessoal, específica, e outra simbólica, comum a uma coletividade. Ficar só numa delas, generalizando tudo ou só fulanizando, nos deixa igualmente incompletos.  

(*)

A tela do meu computador andou sombria por esses dias.  Imagens de barbárie pareciam chegar a cada clique. Numa delas, um jornalista está ajoelhado, vestindo um macacão cor de laranja prestes a ser degolado por alguém com o rosto coberto ( não sei se a cena estava disponível, não cliquei ). Li várias análises políticas, religiosas, sociológicas a respeito, mas nenhum discurso descrevia o que vi naqueles dois pares de olhos.

(*)

Em outro momento, o noticiário da TV mostrava, através da câmera de segurança de uma casa noturna, as últimas imagens de uma jovem que, dias depois, seria encontrada morta. Ela saia do local com um homem, agora, principal suspeito do crime. Ao abrir a porta, a mulher fechou o casaco para se proteger do frio que vinha da rua.

Este gesto trivial de alguém se protegendo do frio enquanto ignorava estar desprotegida de um risco infinitamente maior ficou na minha mente; sem que eu conseguisse dar significado nem esquecer. Como uma árvore que não me deixa enxergar a floresta.

(*)

Meus dedos, quase por reflexo, digitaram o canal da rádio NET. Caiu numa estação dedicada aos Beatles. Tocava uma canção falando de um Padre McKenzie a escrever sermões que ninguém ouviria e de uma tal Eleanor a cujo enterro ninguém compareceu... ah, look at all the lonely people! where do they all come from? all the lonely people... where do they all belong?



9set2014

de novo (164)

Não sei se é fato ou lenda que os índios, nativos americanos, não tenham percebido a chegada das caravelas europeias à costa por serem coisas estranhas ao seu universo. Que tenham visto mas não tenham enxergado - não sei. De qualquer forma, é uma metáfora tão gasta quanto boa para a capacidade de sacar o novo. Há quem afirme que só se percebe quando já não é mais novo. Será? Não sei...

Talvez o novo, falado assim, sem meios tons, só exista em inexistentes condições ideais de temperatura e pressão. Aqui, nessa bolinha azul aparentemente à deriva no cosmos, talvez a gente deva se acostumar à mistura permanente do velho com o novo com o mais novo ainda, como uma bolota de massinha de modelar de cores diferentes mas inseparáveis.

Enquanto isso, dá pra se divertir um pouco com a pomposidade das análises equivocadas. Quando pintou a onda da música eletrônica, eram deliciosamente burras as resenhas que aplicavam as mesmas ferramentas usadas para pensar o roquenrrou num outro som, feito de outra forma, para outras pessoas ouvirem de outra maneira. Fosse falando bem ou mal, era hilária a aplicação literal de conceitos que pertenciam a outro ambiente. Como se um juiz de futebol apitasse um jogo de basquete, marcando "mão na bola" a cada lance.

Acontece a cada nova onda no ambiente novidadeiro e chiliquento da música pop. É interessante observá-lo ao longo de uma fatia mais generosa de tempo, sacar como as percepções mudam sem que o objeto central - a música - tenha mudado. 

Quando pintaram as bandas punk e new wave, tudo parecia tão diferente do rock clássico! Encurtaram os cabelos e os solos de guitarra, pintou ironia nos nomes (uma banda chamada Polícia, imagine! Impossível em Woodstock). Passado o tempo, tudo que se considerava inédito esmaece e as semelhanças com a tradição se ressaltam. Police deixa de ser o oposto de Cream (se irmanam na fraternidade dos trios), Clash se aproxima a Rolling Stones, Sex Pistols a, digamos, Black Sabbath...

Bah: antes que pintem comentários tentando aprofundar estas comparações, já aviso que me vieram à mente sem muita reflexão, no momento em que escrevo, exemplos rápidos. Afinal, se eu fosse um crítico, racional, não seria músico. 

(*)

Acho que a palavra "novo" se meteu na minha mente numa caminhada, ontem, vendo tanta propaganda de candidatos se dizendo "o novo" na política. Afinal, queremos o novo? Qual novo? É possível conhecê-lo? E reconhecê-lo, é possível?

Bah: deixa eu cair fora antes que comece o bate-boca político. Mas deixo vocês com meu melhor emoticon:

=)


02set2014

Lato Sensu (163)

Bom senso: ou a gente nasce com ou morre sem.

Será? Reconheço que há talentos inatos e características definitivas, mas eu não colocaria o bom senso entre eles. Pelo contrário, acho que é o tipo de coisa que o tempo pode ajudar a construir. Pode ser desenvolvido. Se não por todos, ao menos por quem tem... (ops!)... bom senso.

Seja como for, nesse mundo onde o excesso (para mais e para menos) é considerado um valor em si e comedimento é geralmente visto como algo sem graça, é bom encontrar alguém com bom senso, né? Uma lufada de ar fresco em meio ao mormaço.

(*)

Há quem considere "bom senso" e "senso comum" sinônimos. Cuidado! Podem até ser, num mundo perfeito. Mas nesse, nosso, igualar estes conceitos é um passo grande demais. Em falso. Lembremo-nos que escolheram Barrabás!

Grande parte dos caras que fizeram a humanidade evoluir pensaram fora da caixinha, sonharam na contramão. Às vezes, bom senso é senso incomum

(*)

Entre espertinhos e espertalhões, num mar de espontaneismo vazio e caricato, discernimento é mais do que saber tudo: é, também, saber ignorar. Às vezes, ter bom senso é ser bem sonso.

Sentido, senhores!
censores
 sem talento sensorial
abraços
26ago2014

tenho dito (162)

Se deixei de postar algumas vezes nas últimas semanas foi para poupá-los. É que ando obcecado com a finalização do DVD Insular e, pra não aborrecê-los falando só nisso, preferi ficar quieto.

Aliás, tenho gostado mais e mais de ficar quieto. Assim como tenho gostado, cada vez mais, de beber água. O simples, o mínimo, o necessário.

(*)

Há alguns dia, fui convidado a participar de um programa esportivo na TV. Eu estava em Brasília por conta da tour. O programa, feito no Rio, ainda contaria com um convidado falando desde São Paulo.

Enquanto esperava que a equipe do estúdio resolvesse problemas no ponto eletrônico e no link, comecei a temer que acontecesse comigo o mesmo que aconteceu com a pobre entrevistada que, confusa pelo delay (o atraso entre o que se fala e o que vai ao ar), ficou repetindo sanduíche-íche-íche-íche. Viralizada na www, deve estar até agora repetindo: íche-íche-íche...

Para aliviar a tensão, pensei na ironia do destino: justo eu, um cara desde sempre quieto, tímido até para responder "presente" nas chamadas da escola, virei uma pessoa pública! A sensação de inadequação só se desfaz quando lembro do que me trouxe até aqui: a música.

(*)

Alguns dias antes eu havia sido convidado a participar da propaganda eleitoral de um partido no qual até é provável que eu vote para alguns cargos. Agradeci o convite, mas expliquei que não tô a fim. Não quero influenciar ninguém. Nem o pessoal aqui de casa.

Talvez se o cenário estivesse melhor (ou pior) eu sentisse vontade (ou necessidade) de me manifestar, como já fiz.  Não vejo isso como desânimo, mas, no momento, nah...

Os tempos são outros. Se antes era necessário espalhar informação, hoje ela está ao alcance de qualquer um com um mínimo de perspicácia. Talvez ficar quieto e deixar quem sabe falar seja a coisa certa a fazer ("talvez", tenho gostado cada vez mais desta palavra!).

O engraçado é que no convite foi sugerido que eu cantasse "eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada". Ok, todo partido deve achar que o "eles" em questão é o partido rival. Mas, caramba, a frase seguinte da canção fala em metafóricos Fidel e Pinochet! Ou seja... fala de todos, né?

Tudo bem, a sensação de inadequação se desfaz quando lembro do que me trouxe até aqui: a música.

(*)

Noto que alguns colegas gostam dos efeitos colaterais de ter seu trabalho reconhecido - a notoriedade, o vinho barato dos coquetéis e, principalmente, a possibilidade de falar muito e para muitos sobre tudo e qualquer coisa; de sexo a culinária, de cinema a futebol, de literatura a política... sem ter expertise em nenhum desses assuntos. Com a superficialidade que o mundo pop pede - ou melhor, impõe. Alguns parecem preferir isso à música. São os que, como brincávamos nos anos 80, vendem mais revistas do que discos.

Eu sei, eu sei, faz parte. O público é curiosos a respeito de seus ídolos. Eu sei, também sou fã. Mas há uma linha tênue determinando onde pára o bom senso e onde começa o excesso. Linha que muitas vezes o ego não nos deixa enxergar. Onde o simples passa a ser complicado, o silêncio vira tédio, "talvez" começa a ser considerado palavrão e água já não basta. 

19ago2014


Telegramas (161)

tô sempre escrevendo cartas
que nunca vou mandar
pra amores secretos
revistas semanais
e deputados federais


Para os companheiros da equipe Insular, eu diria: Podemos nos orgulhar do que temos entregado noite após noite da tour. Como dizem os argentinos "disfrutando e dejando todo en la cancha". Pular é fácil. O difícil é construir e subir cada degrau da escada que leva à borda do trampolim. Fiquem tranquilos, o DVD vai fazer jus.

Para o Gláucio (que está editando o video), para o Protásio (que está mixando o audio) e para a Messy (que está fazendo o projeto gráfico), eu diria: Afudeah! Tá fazendo jus! 

Para o gaúcho de bigode que, esgualepado por 7 porradas que a vida lhe deu fora dos pagos, justificou a volta ao time do coração dizendo precisar do carinho da torcida, eu diria: Que legal, meu velho, usar a palavra "carinho" num ambiente em que a valentia vazia é tida como valor absoluto.

Para a torcida que alentou o gaúcho bigodudo na sua chegada, eu diria: Que legal! Tentem manter a vibe boa mesmo quando a vida der porrada.

Aos matemáticos do sucesso alheio, eu diria que a fórmula agora é outra: 90% inspiração + 90% transpiração + ??% imponderável

Aos matemáticos do fracasso alheio, não diria nada. Mas quando ninguém estivesse olhando, eu bateria 3 vezes na madeira.

Aos de fé, eu repetiria o que disse no PSS123, no MDA45, no 6SDA e Nas Entrelinhas do Horizonte. Nah, acho que não diria nada. Eles estão ligados. 

Aos irmãos do Oriente Médio, diria: Give Peace a Chance. Mesmo sabendo que muito provavelmente eles discordassem sobre o significado de cada palavra desta frase tão curta e direta. 
Como assim, "dar"?!?  
- "Paz"?!? O que quer dizer?
- Que tipo de "chance"?!?
Parece bobagem utópica? Tudo bem, até pode ser. Mas o telegrama é meu, eu digo o que quiser. E repito: Give Peace a Chance!

abraços
aos leitores dos telegramas
que nunca vou mandar
(e carinho!
no fim e ao cabo
é disso que se trata, né?
então, táca-le pau nesse carinho!)
05ago2014

dum dum-dah-dum dum dum dum dum

Sentei no sofá com a sanfona no colo, a mão esquerda tateando os botões da baixaria enquanto a direita zapeava no controle remoto. Seriam, estes também, botões da baixaria (em outro sentido)? Não nesse caso: só estava procurando um canal para assistir a mais um jogo da Copa.

Sem me dar conta do que fazia, comecei a tocar, vacilante, a frase de contrabaixo que Roger Waters criou para a musica Money. Dum dum-dah-dum dum dum dum dum. Ela é famosa pelo grande sucesso da canção e pela singulariedade do compasso 7/4, pouco comum na música pop (pode-se ouvir uma rádio por semanas sem escutar nada que fuja ao 1-2-3-4; em algumas rádios pode-se esperar em vão a vida inteira por algo que fuja a essa regra).

Não sei quão comum é o fato de alguém surpreender-se consigo mesmo. Comigo acontece com frequência. O que pode ser sintoma de excesso (ou falta) de auto análise. 

Fiquei surpreso ao me flagrar tocando - no sofá esperando o início de um jogo qualquer - a frase de baixo de Money no acordeon. Caraca, me dei conta de que, apesar de fã desde sempre, nunca tentei tocá-la no contrabaixo! Ao menos nunca tentei emular o original nota por nota. Apesar de saber que copiar é uma forma válida de aprendizado (se não nos esquecermos jamais que estamos copiando - parece obvio, mas... olhe em volta).

Seria extremo amadorismo meu, fã e baixista, nunca ter tocado Money no baixo? Ou extremo profissionalismo? Conviver com o mistério, não querer decifrá-lo pra não quebrar o encanto seria sinal de ignorância ou de sabedoria? Será este o significado do dito existencialista "a dúvida é o preço da pureza"? 

Acho que é possível admirar sem querer copiar. Correndo o risco de extrapolar e dar um passo maior do que as pernas: acho que é possível amar sem querer possuir.

(*)

Falando em "correr", "passo", "pernas" e no "risco da racionalização das paixões": pergunte a uma centopeia como ela anda e ela tropeçará.
abraços
29jul2014

Lembranças do Circo Voador ( e do Circo da F1)

            Toquei pela primeira vez no Circo Voador no dia 25 de outubro de 1986 em um show coletivo que comemorava o aniversário da lendária casa de shows . Engenheiros do Hawaii dava seus primeiros passos fora do sul com um disco chamado Longe Demais das Capitais debaixo do braço e muitos sonhos na cabeça.
            Uma lembrança prosaica da noite: Celso Blues Boys era a atração principal mas pediu para tocar antes da gente pois queria assistir ao Grande Prêmio da Austrália de Fórmula 1 que, na madrugada brasileira, definiria um dramalhão mexicano que se arrastava há meses. Estrelado por Nelson Piquet e Nigel Mansell.
            Desde sempre, a cena músical alterna ciclos de generosidade e caretice. O Circo Voador (os anos 80) marcam, para mim, uma dessas fases em que público, artistas, casas de show, imprensa, etc… estão mais generosos, menos preguiçosos. Eletricidade no ar.
            Voltei a tocar no Circo Voador em 94 e 95. Em 2005 gravei ali um especial para a MTV e, em 2011, foi a vez de levar ao picadeiro outro espetáculo: o Pouca Vogal.
            Piquet já parou de correr faz tempo (até o filho dele já abandonou a Fórmula 1!) e eu sigo por aí. Pois é… acho que meu lance é mais maratona do que 100 metros rasos.
(texto a pedido do jornal Zero Hora)
24jul2014


Um Texto Só Que Não (158)

Pois a Copa veio e a Copa foi e eu sigo mixando o audio do DVD Insular...

( "Úi, que burro! Dá zero pra ele", diria o filósofo mexicano. Com razão: se estou mixando, obviamente é audio. Se fosse video, estaria editando. )

Fato é que, neste período, no mundo encantado da FIFA, nasceram alguns heróis e alguns heróis tombaram (alguns heróis nasceram E tombaram nesse período).

E eu? Sigo no estúdio. Tenho a paciência de um monge? Sou um nerd detalhista? Nah, essa etapa do trabalho é demorada mesmo. Ainda mais neste caso: 
- são 23 músicas gravadas ao vivo
- as gravadas na serra gaúcha têm cinco formações diferentes (em 3 locais distintos) 
- as gravadas em BH têm seis formações diferentes.

Acima de todas as dificuldades técnicas, reina a vontade de eternizar o irrepetível. Será possível salvar aquela performance única para sempre? Na tentativa, há muito o que decidir e executar. Há que traçar fronteiras (sempre subjetivas) entre técnica e emoção. 

Falando em fronteiras: desde cedo ergui um muro imaginário que me separa da mesa de mixagem. Vi colegas picados pelo bichinho da tecnologia de produção musical afastarem-se da saudável falta de controle que a criação artística pede. Não quis correr este risco.

Por sorte, encontrei no caminho gente bacana pra mexer nos botõezinhos, movimentar o cursor e clicar no mouse (Alexandre Master, Ronaldo Lima, Protásio Jr, entre outros).

Nesse tempo em que estou mixando o DVD Insular (das 9 às 19 por tempo suficiente para se jogar uma Copa) me orgulho de ainda não ter sentado na cadeira do técnico. Fico dois metros atrás, no sofá, dando pitacos que - imagino - às vezes são difíceis de traduzir em números frios, parâmetros precisos  e frequências sonoras.

Na espera, entre uma e outra manobra do heróico técnico de som na sua mesa mágica, andei lendo toneladas sobre a Copa (o mais recente foi um texto bacana do Carlos Maltz citando Nélson Rodrigues com propriedade). 

Li fofocas, teorias conspiratórias, táticas, escalações, palpites, flautas, teses sociológicas... Algumas coisas interessantes, outras pretensiosas (algumas pretensiosas E interessantes). 

Essa overdose de informação me tirou a vontade de falar no texto desta semana (sim, até aqui espero não ter dito nada). Mas, hey, qual seria a justificativa de postar este não-texto? Esta: sugerir que vocês ouçam música no tempo que gastariam lendo. 

Qual canção? Por quê a escolha? Bom, isso daria outro texto, né? Um verdadeiro. Ou comentários muito bacanas abaixo deste não-texto. Sou todo ouvidos.


beijos e abraços
15jul2014

queixo-me às rosas / mas que bobagem! / as rosas não falam (157)

Parece inevitável que um ano com Copa do Mundo e eleições bata todos os recordes de estereótipos e clichês. Sutileza zero. Na cobertura dos dois eventos, apesar do grande tempo à disposição, vive-se o paradoxo do aprofundamento superficial.

As telas mostram o típico alemão, o típico argentino, o típico comuna, o típico reaça... A vida real mostra que o típico não existe. É uma abstração reducionista. O poeta avisou: "de perto ninguém é normal".

Mas para quem gosta de esportes, a Copa é um prato cheio. E quem já viveu tempos em que não se podia votar sabe valorizar a oportunidade - mesmo que pipoquem, cada vez mais, questionamentos à democracia representativa. Né?


Tenho conversado muito com as árvores nas minhas caminhadas de ida e volta ao estúdio. Em tempos frenéticos como esses, elas fazem um contraponto interessante. Esquivas, não estão nas redes sociais nem têm o hábito de ler emails. Mas, apesar de nãos serem de muitas palavras, sabendo ouvir rolam boas histórias.

Algumas dessas árvores já estavam onde estão desde antes de serem abertas as ruas por onde ando. Presenciaram a transformação do chão batido em paralelepípedo e em asfalto. Testemunharam o aumento da velocidade dos carros pelo avanço tecnológico e a diminuição da velocidade do trânsito pelos engarrafamentos. 

Nada disso parece abalá-las. O mesmo não pode ser dito das temporadas de estiagem, das noites de temporal e dias de ventania, da diminuição do canteiro que as sustenta e alimenta, da passagem barulhenta de alguma retro-escavadeira mal intencionada. 

Levam uma vida mais simples que a nossa, né? Na nossa, às vezes parecem coexistir enchente e estiagem (assim como coexistem a velocidade dos carros e a lentidão do trânsito) e, por vezes, são legiões de retro-escavadeiras mal intencionadas que parecem atacar nossa alma e jugular.

Mas nessa hora, quando as ameaças estão todas perto demais, já estou na esquina do estúdio. Alguns metros a mais e estou em casa. Em paz. Fazendo música.

08jul2014

Lapidar - 156


"Sabendo onde se quer chegar já é difícil, sem saber..."

A frase pairou na fronteira nebulosa entre dois mundos (pessoal e profissional) pois o ambiente favorecia a imprecisão: estávamos em uma reunião de negócios, mas no intervalo para um café.

Ouvida em meio a um silêncio que, longe de demonstrar atenção, revelava mentes concentradas mas ausentes, a frase passou batido. Parecia mais um enunciado morno saído de livros de auto-ajuda que, geralmente, só ajudam a quem os vende.

Sintomaticamente ela acabava sem fim, reticente, deixando o ouvinte livre para projetar um final infeliz a seu gosto.

"Sabendo onde se quer chegar já é difícil, sem saber..."

Frases desse tipo tendem a ser guardadas sem muita reflexão na gaveta das verdades absolutas. E voltam à mente vez por outra. Esta, que ouvi faz tempo, a cada visita me parece menos definitiva, mais pálida e desbotada.

Desde lá, a vida tem me ensinado que não se trata de traçar um plano com perspicácia e colocá-lo em prática com paixão. Esse papo de perseguir um sonho, agarrar-se a ele com unhas e dentes, tem mais a ver com propaganda de isotônico do que com a vida real.

Sim, há que sonhar e acreditar no sonho; mas há também que desconfiar dele, não deixar a convicção transformar-se em teimosia. Fé cega e pé atrás! Sentir com inteligência, pensar com emoção! Quem disse que seria fácil?

A questão não se resume a escolher entre enxergar a árvore ou a floresta, há que enxergar as duas. E fechar os olhos! Deixar de ver, ignorar onde se quer chegar, em alguns momentos pode ajudar, pois, na real, cada passo que se dá transforma a estrada. Cada passo cria um possível novo destino.

(*)

Estou na reta final da produção do DVD Insular Ao Vivo. Dias repletos de escolhas a fazer. Na mixagem do áudio, na edição das imagens, no projeto gráfico, na busca do melhor parceiro para o lançamento... Sinto um cansaço bom por estar fazendo o que acho certo, da forma que me parece correta, cercado de pessoas legais e talentosas.

(*)

"Sabendo onde se quer chegar já é difícil; sem saber, é impossível". Será? Tem certeza?

(*)

Se, nessa manhã chuvosa de POA, me perguntassem onde quero chegar, eu usaria a mão que está livre (a outra segura uma cuia de chimarrão) para fazer um gesto vago como quem joga sementes ao vento. Uma indicação imprecisa, pois só navegar é preciso. E seguiria mateando em silêncio.

01jul2014

... (155)

"Alienado" era um palavrão nos tempos da minha adolescência. Não sei se já era antes e se continuou sendo depois. Sei que, por uma estranha coincidência, alienados eram sempre os outros, não nós! 

Alienados eram os que gostavam de disco music, não nós que gostávamos de rock! Os que gostavam de rock, não nós que gostávamos de outro tipo de rock. Os que gostavam de outro tipo de rock, não nós que gostávamos de MPB. Os que gostavam de MPB, não nós que gostávamos de MPG...

Sim, muito relativo. Como tudo que existe mais da boca pra fora do que no fundo do peito, muito relativo.

Éramos uma juventude que não havia presenciado o golpe em 64, mas vivíamos sob suas consequências. Quem vive um momento de ruptura ou é contra ou é a favor - salvo exceções que confirmam a regra. Com o tempo, surge um pessoal que se acomoda com o status quo e nem pensa a respeito (como o sapo que - dizem - se jogado numa panela de água fervente, pula; mas, se colocado numa panela de água fria posta a ferver, fica ali e morre sem se dar conta do aquecimento gradual). Era contra esse pessoal que se erguia o insulto: alienado!

Na minha turma, ninguém queria ser alienado. Com, o tempo, alguns de nós descobriu que jamais seria alienado: cabeções, não se ligar estava além das possibilidades de alguns de nós! E a capacidade de desligar a mente por um instante que seja, passou até a ser desejada. 

Jogar tênis e assistir intermináveis partidas tem funcionado, desde então, pra me deconectar um pouco. Dia desses, acompanhando a cobertura de um campeonato, vi um lance intrigante (fora das quadras): o âncora da mesa redonda fez graça avisando que iria esconder a perna atrás da mesa pois o diretor lhe avisara, através do ponto eletrônico, que não era legal mostrar a canela sem meia.

"Intrigante por que?", deve estar perguntando o prezado leitor. Ora, porque se os caras queriam mesmo fazer uma cobertura formal e estavam preocupados com a canela peluda, deveriam tirá-la de cena de forma discreta, sem piadas, né? Mas se queriam fazer uma cobertura informal, até engraçada, que deixassem a tal canela aparecendo.

Vislumbrei nessa cena irrelevante uma demonstração da característica brasileira de misturar o formal e o casual, o público e o privado, o profissional e o pessoal. Informalidade, brodagem, compadrio, conchavo... 

Talvez nosso tão falado jogo de cintura tenha nos ajudado a chegar até aqui, como molas que suavizam pancadas numa máquina mal projetada. Talvez esteja na hora de superar esta fase e crescer, né?

O quê? Só falei bobagem? Deveria ter curtido a cobertura do jogo sem pensar nisso? Sim, eu sei. Mas eu avisei, né? Às vezes desligar é um dom... que nem todos têm.



bah: hoje não tuitei nem feicibuquei esta postagem. Então, a você que chegou até aqui, vai o meu sincero: Caraca, valeu!
24jun2014

Fleuma - 154

Em meio a tantas e tão heróicas imagens da Copa, foi uma insignificante que conquistou o disputado espaço da minha atenção. Aconteceu no jogo Japão x Costa do Marfim e foi assim:

Quando o juiz apitou sinalizando o fim do primeiro tempo, a bola estava com um jogador africano que simplesmente deixou-a de lado e caminhou em direção ao vestiário. Pasmém! Sem um último toque na bola! Nem um bico de desabafo para longe, nem um toque politicamente correto para as mãos do árbrito, nem uma firula pra torcida! Simplesmente deixou-a de lado! 

Quem não está entendendo meu espanto certamente nunca jogou futebol na rua. Nestas situações, quando a mãe grita "Chega, menino! Já pra dentro tomar banho e jantar!" é impensável sair sem um último chute desaforado, sem uma derradeira tentativa de gol ou drible.

Assim como - dizem - os esquimós tem várias palavras para designar a cor branca (pudera, vivem cercados de neve!), nós, nerds futebolísticos, sabemos diferenciar vários tipos de chute: o cara pode chutar com raiva, carinho, nojo, desdém... só não pode deixar de dar um último toque na bola depois que o juiz apita o fim do jogo! Ou depois que a mãe decreta o fim da brincadeira.

Como uma coisa - a bola - tão ardentemente cobiçada um instante atrás pode ser tão prontamente abandonada?

Ok, talvez eu esteja sendo radical. Podemos considerar o gesto (ou melhor: a falta do gesto) uma louvável prova de autocontrole e profissionalismo. Assim como políticos de ideologias opostas que se engalfinham atrás de voto são capazes de fazer uma aliança no dia seguinte às eleições ou às vésperas da próxima. Ok, ok, pode ser uma louvável prova de pragmatismo e autocontrole.

Profissionalismo? Eu preferiria mais amadorismo nos dois casos. Autocontrole? Não é muito minha praia. Eu não consigo ficar sem estourar as bolhas de ar no plástico de proteção das embalagens. E tenho que sair de perto do balcão quando vejo, na portaria do hotel, uma daquelas sinetas de metal. Ah, que vontade incontrolável de bater nela! Piiiiiiiiiinnnngg...

(*)

Esse papo me lembrou a seguinte história, que ouvi do produtor Paul Ralphes: o guitarrista de uma banda (não lembro se era a banda inglesa da qual Paul fazia parte nos anos 80) chega ao estúdio com sua nova guitarra: uma Gibson semi-acústica rara e maravilhosa, comprada de um colecionador. 

Todo mundo fica babando pela guitarra e pedindo para tocar (nos dois sentidos: passar a mão e fazer soar algumas notas). Nisso, passa pelo corredor o Eric Clapton - por acaso, ídolo do novo dono da velha Gibson. Clapton entra na sala timidamente, atraído pelo instrumento, e pede pra dar uma olhada. Todo mundo acha o máximo. Caramba, Clapton! O cara! Ele vai tocar na guitarra! Yeah!

Clapton pega a guitarra, examina a madeira, olha o sêlo através do f-hole, os captadores,  as cravelhas, o braço... e todos na expectativa, que só aumenta: o que será que Clapton iria tocar? Se ele fizesse o riff de Layla -uau!-  abençoaria a guitarra!

(Na minha adolescência ninguém pegava uma guitarra sem se exibir com o riff de Smoke On The Water ou a intro de Stairway to Heaven.)

Pois depois de examinar a guitarra, delicadamente ele a devolve dizendo "Nice", dá as costas e sai. Sem tocar uma nota.
17jun2014

mãos à obra por aqui, mãos na taça acolá (153)

Depois de uma semana esperando a bola da emoção baixar, hoje fui ao estúdio iniciar a mixagem do show de BH para o DVD Insular. É bom estar com a cabeça fria nessa etapa. Talvez "necessário" seja uma palavra mais apropriada, pois "bom" mesmo é emocionar-se, deixar-se levar.

É provável que os colegas que dão mais importância às mesas de som e softwares do que às ideias e sentimentos saiam na frente na busca de um puta som. Não é meu caso. Mas, não se trata de uma corrida, né? E mesmo nas corridas, há sempre a chance de, como na fábula, a tartaruga vencer a lebre.

O vento que infla minhas velas para atravessar o monótono mar de botões e menus é a vontade de ver o trabalho pronto, chegando às pessoas. Esse momento mágico, no caso de um projeto ao vivo, é como um retorno. Volta para casa, para as mãos de quem participou da gravação ou acompanhou a jornada mandando boas vibrações. 

Na caminhada para o estúdio, as obras inacabadas da cidade e as onipresentes propagandas com jogadores lembraram-me a todo momento que a Copa está aí. Torci contra a candidatura do Brasil para sede. Hoje torço para que tudo transcorra sem problemas (os jogos e as manifestações que, por sua lógica, quererão aproveitar o momento de maior exposição midiática - acho saudável que o contraste entre o fantasioso mundo do futebol empresarial globalizado e nossa sofrida realidade tenha saltado aos olhos de todos gerando até momentos de humor involuntário como na embaraçosa propaganda de cerveja dizendo que não vai haver Dia dos Namorados no mesmo ambiente em que circula o slogan  "não vai ter Copa". Rir pra não chorar...). 

A TV pendurada na parede do bar onde parei para comprar uma garrafa d'água mostrava cenas de Copas passadas. Lembrei que as mixagens do Longe Demais das Capitais se deram durante a Copa de 86. Quanta coisa mudou! Quanta coisa segue igual!

Sim, meus jovens, perambulo em volta de mesas de mixagem há mais tempo do que muitos de vocês têm de vida. Isso me deixa mais seguro? De modo algum! É sempre a mesma sensação de estar começando do zero. Mais uma vez pela primeira vez. Cada projeto tem seus mistérios e suas vontades, cada disco faz alguns convites e recusa algumas ofertas. 

Enquanto caminhava na neblina desta manhã porto-alegrense, minha mente passeava pelos igualmente nebulosos (mas muito menos lineares) caminhos da memória. O estúdio em que estou mixando o novo trabalho é o mesmo em que mixei minha primeira demo (da música Engenheiros do Hawaii, A Canção, em 85). Quanta coisa mudou! Quanta coisa permanece igual! 

Passarei assim as próximas semanas: alguns dias envolto nas nuvens da minha arte/ofício; outros dias iluminado pelo sol da minha arte/ofício. Peço desculpas se o papo ficar repetitivo por aqui. É o que de melhor posso fazer para quem gosta da minha arte/ofício: manter foco total na reta final de produção do DVD Insular

E fazer o melhor na insignificância do nosso cantinho no cosmo vale mais do que qualquer bravata, por mais grandiloquente que seja, né?

(*)

bah: abaixo, na minha opinião e em ordem, os candidatos ao título de 2014 (critérios puramente técnicos - se é que isso existe):



10jun2014

Hora H, Dia D (152)

Três batidas na porta do camarim anunciam: bora, chegou a hora! Automaticamente os olhos se voltam para o espelho para uma última conferida na posição dos fones e do suporte da harmônica.

Um corredor escuro leva ao palco, onde o trio se posiciona ainda com as cortinas fechadas. Contagem regressiva para o início da locução que levará à abertura das cortinas que levará ao primeiro acorde que nos levará - queira Deus - a interessantes paisagens sonoras.

Ops, começa uma movimentação estranha no backstage! Mãos se erguem sinalizando que houve problema com algumas câmeras. Por um instante, tudo fica suspenso no ar. Quanto tempo dura este instante? Não se sabe.

Putz, que droga! A gente se programa para estar no pico da energia nessa hora e rola um anti-clímax desses! Eu sei, eu sei, profissionais não são os caras que fazem a coisa certa: são os caras que fazem a coisa certa na hora certa. "Domínio da situação" é o nome do jogo.

Mas, pô!, eu não queria ser profissional agora; não nessa noite! Não queria dominar coisa nenhuma. Pelo contrário: queria ser dominado pela emoção do momento (às vezes ser amador é a maior prova de profissionalismo). Nessa noite, só queria continuar a ser o menino que tinha posters de bandas colados na parede do quarto . Ele estava aqui, pronto pra atacar... agora sumiu.

(*)

Gravar um DVD num único show é arriscado e tenso. No primeiro dia de gravação do DVD Novos Horizontes (2007) tocamos sem erros, mas também sem o brilho de que éramos capazes e que só veio na noite seguinte. 

Um dos shows da gravação do Alívio Imediato (1989) não pôde ser utilizado pois descobrimos, na mixagem, que um fã com uma buzina de ar comprimido ficara justo sob um dos microfones posicionados para captar o som da plateia. Cada vez que se emocionava, o cara fazia um esporro enorme. E o cara se emocionava muito!

O mesmo aconteceu numa das sessões do Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993): muita sensibilidade na captação do som de uma guitarra - culpa de um novo sistema que estávamos testando - fez com que muito mais do que o desejado fosse gravado.

Tentei não pensar nisso enquanto estava ali, no palco, ainda esperando que se resolvesse o problema com a câmera. Mas a escalada da tensão era inegável. 

Melhor não fazer contato visual com ninguém nesses momentos pois a tensão se espalha de forma contagiosa como o soluço. A não ser que alguém com um olhar tranquilo e um sorriso relaxado corte a corrente. Mas é algo arriscado pois, se forem fingidos o olhar e o sorriso, a situação degringola irreversivelmente.

Resolvi olhar para cima, uma maneira sutil de ficar sozinho. Meu olhos se fixaram na cobertura da sala, acima dos refletores e das estruturas que sustentam o cenário. Ali, no teto, alguns milímetros da telha de metal me separavam do céu de BH. Assim como alguns milímetros do tecido da cortina me separavam dos cinco mil malucos-beleza que gritavam pelo show.

Aí então (talvez agora eu esteja imaginando, falando em metáforas, não sei... é possível) o teto se abriu e eu sobrevoei BH. Depois, Moscou, Bagé, Nagoya e centenas de cidades aonde minha música já me levou, aonde já levei minha música. Os tempos se embaralharam (ou melhor: se desembaralharam) e começaram a andar paralelos. 

Encontrei, de novo, lá em cima, num passado ainda por acontecer, o alemãozinho que colava capas de disco na parede do quarto. Que ele não morra nunca! Que sobreviva ao meu último acorde! Acordei (sonhei?) com o toque de alguém da produção avisando que estava tudo ok com as câmeras; enfim o espetáculo poderia começar.

Agora sim: contagem regressiva, locução... a cortina se abriu e todos os presentes deram um show! Por sorte, eu estava no melhor lugar da casa para assistí-lo. 

Belo Horizonte, 30 de maio de 2014.





Luz, Câmera.... AÇÃO! (151)

Registros audiovisuais de shows eram raros nos tempos pré-video. Os filmes eram reservados a artistas no topo do topo da pirâmide. Mesmo assim, eram sempre cercados por lendários problemas técnicos: câmeras que pifaram em cima da hora fazendo com que músicos ficassem de fora do resulatdo final, falta de sincronia entre som e imagem... 

Não havia espaço para eles na TV. Nos cinemas, a exibição era limitada a horários dito malditos. Demoravam muito para serem finalizados e para chegar ao Brasil (a distância entre centro e periferia do mundo era muito maior). Assim, para um portoalegrense entrando na adolescência, Woodstock,  Last Waltz, The Song Remains The Same, Live At Pompeii e Tommy foram todos exibidos em cinemas precários num mesmo ano que durou quase uma década.

Paro por aqui o revival por achar que quem viveu isso já sabe e quem já nasceu filmando em HD no celular e disponibilizando para o mundo inteiro alguns segundos depois jamais entenderá.  

Nesta sexta, gravo meu sétimo disco ao vivo, sexto DVD. Tudo pronto. Objetivamente (repertório e arranjos definidos, instrumentos checados) e subjetivamente (vibe ducaralho, sensação de que a hora é essa).

Desde já agradeço a quem faz parte disso ajudando a emitir e recebendo a música. É um esforço enorme confrontar os sonhos com a fria matemática capitalista e a complexidade da logística, mas a vontade é sempre maior e a independência já é um grande prêmio.

Especialmente interessante, para mim, foi acompanhar os pitacos dos fãs. A interação é tão rápida e imediata hoje em dia! Quanta diferença para o Alívio Imediato (o primeiro ao vivo) e mesmo para o Pouca Vogal (o mais recente)!

Todos os pitacos são válidos e coerentes (com exceção dos raríssimos espíritos de porco que são exatamente isso: uma exceção à regra da excelente vibe do momento). Mas se, tomado isoladamente, cada pitaco faz sentido, em sua totalidade eles são (saudavelmente) de uma diversidade e incoerência incríveis. Pedem coisas opostas e irreconciliáveis. Tomo isso como um sinal positivo, a prova de que criamos um território generosamente amplo onde é possível movimentar-se para todos os lados, em várias velocidades.

Espero que o DVD Insular siga de forma digna e elevada o diálogo que temos mantido há tanto tempo. Se agradar a todos - noooosa! - vai ser uma benção! A continuação de uma benção que não me canso de agradecer.


bah: quando os amigos da Stereophonica disseram que queriam fazer uma camiseta pra marcar o evento, sugeri que ela fosse personalizável. Sabendo que muita gente sairia de outros estados para assistir ao show, pensei em duas bandeiras na manga: uma sinalizando a origem, outra o destino: Minas.

É só um detalhe, mas o mundo é feito de detalhes e signos. A bandeira de Minas fica como símbolo da nossa união pela música, numa noite entre tantas. A bandeira de origem é o emblema da minha vontade de conhecer cada um mais de perto. Eu sei, não é possível... mas o que é um artista senão um cara que vive tentando o impossível?
abraços
27mai2014

Os Sinais Estão No Ar (150)

Bah, queria voltar à rotina dos post escritos com calma e vagar; com temas independentes das atividades cotidianas da minha arte/ofício. Mas é tamanha a correria em função da gravação do DVD INSULAR que não tenho conseguido.

O alto grau de intensidade com que trabalho é bem conhecido por quem é próximo a mim. Nem sempre é o ambiente mais confortável, mas são inegáveis os frutos que ele gerou e continua gerando. 

Sou fascinado pelo mundo dos músicos eruditos, dos jogadores de xadrez e atletas de ponta - sobretudo nos esportes individuais. Gente que dedica uma enorme energia ao refinamento de seu dom, que desenvolve um foco difuso, tensão relaxada, força e delicadeza, disciplina e liberdade, propícios para captar os mais sutis sinais e reagir com precisão veloz.

Apesar de trabalhar no território (aparentemente) mais simples da música popular, gosto de pensar que há semelhanças com essas atividades (aparentemente) mais complexas. Com o tempo, a gente vai aprendendo a ler os sinais (que estão no ar) e a reagir da forma certa e certeira.

(*)

Foi a prática do tênis que ensinou este guri de cidade a prestar atenção no sofisticado jazz do tempo (no sentido meteorológico). O clube onde jogávamos não tinha quadras cobertas. Na fissura de jogar desenvolvíamos intuições premonitóras sobre quando ia chover, que horas bateria o vento. Lidávamos com o sol nos olhos na hora do saque, com a umidade que deixava a bolinha mais pesada.

Aos poucos, aprendíamos a ler os sinais... que estavam no ar. E, como num passe de mágica, tempo e espaço pareciam se distorcer a nosso favor.

É comum tenistas afirmarem, depois de uma grande performance, que a bola estava fácil de ver e prever, que parecia grande como uma melancia. Acontece na música também. Às vezes, compassos que passavam rápido demais assumem um tempo justo e confortável, quando a gente lê corretamente os sinais... que estão no ar.

Tenho recebido alguns sinais (espero estar lendo-os de maneira precisa) que me deixam muito confiante no resultado do DVD INSULAR. Há uma vibe incrivelmente boa noa ar. Os recentes shows em Recife e Fortaleza são um exemplo. Outro: a meteorologia, tão arisca na Serra Gaúcha, esteve ao nosso lado nas gravações do set acústico.

DeuS eSpalha SuaS logomarcaS pelo coSmoS
S de Sol atráS daS nuvenS
SinaiS SinaiS SinaiS
Sun Sun Sun
here it comeSSSSSS
a lua
sob a qual gravamos
na serra gaúcha
a neblina esperou gentilmente
o fim das gravações para cobrir as colinas

prontos pra BH
Ops, voltando ao início do texto (os melhores motivos do mundo para um desvio na rotina do blog): hoje passei o dia envolvido com uma participação no clipe do Bebeto Alves para a canção Milonga OrienTao. Num lugar incrível, cheio de sinais. Aguardem!





Depois das filmagens fui a um desses programas de rádio em que se fala (alto) sobre o futebol e suas rivalidades. Bendito ofício que me leva a lugares tão díspares, mas - igualmente - emissores de sinais.

Chegando em casa, um pouco antes da meia-noite, hora em que postarei (postei?) este texto, resolvi iniciar uma (há muito protelada) troca dos captadores eletromagnéticos do meu Rickenbacker. Que captem bons sinais pelos palcos e estúdios pelos quais passarem; vida afora, noite adentro!


abraços
20mai2014

Serra Gaúcha - um post visual (149)

DIA 1:

Nuvem

A Ponte Para o Dia


DIA 2:

Milonga Orientao

Deserto Freezer

Voo do Besouro

O set acústico, os convidados, a vibe bacana do local e das equipes de som e imagem... tudo registrado. Próximo passo, o show em BH, dia 30mai.

13mai2014

cancha (148)

Uma cancha de bocha foi o local escolhido para os várias encontros de formação do Insular (o disco e - ainda antes - a tour). Por vários motivos e nenhum em especial: pelo caráter lúdico do espaço em meio à correria caótica da matemática urbana, pela sombra das árvores e relativo silêncio, pelo contraponto que o jogo sutil oferece à adrenalina dos esportes radicais, pela sensação de que ser radical, hoje, é estar equidistante dos extremos estéreis.

Na cancha de bocha falei pela primeira vez com o Rafa, combinei fotos com Gustavo, sincronizei agendas com Tavares, expliquei (tentei explicar) intuições e intensões sonoras pro Protásio... Saquei vibes, climas e possibilidades.


O mendigo que mora por ali, com seu carrinho de supermercado e olhos de janela - como se estivesse do lado de fora do mundo, olhando coisas que não entende - se acostumou a ouvir, silencioso, nossas conversas. Quão estranhos éramos sentados na mesa de damas sem nenhuma peça no tabuleiro? 

Não eram conversas para surfar em casa, cercado de coisas familiares. Escritório, não tenho. Restaurante? Não sou dos que gostam de socializar nas refeições. O isolamento acústico dos estúdios só permite música, tudo mais fica insosso... e eis que surge a cancha de bocha!

Assim como o cheiro fica na madeira do piano mesmo muito depois de apagado o incenso, aquele cantinho do mundo, na minha mente, colou no Insular. O local em que abri mapas e tracei rumos.


Hoje, ao passar novamente pela praça, as árvores pareceram iguais a sempre, do mesmo tamanho. Mas o Insular, como cresceu! E esta prestes a gerar novo fruto, o DVD. O que muda e o que segue igual também é uma questão de perspectiva. The sun is the same in the relative way, but you're older.


No sábado, subi a serra para checar algumas locações para a parte acústica do DVD. Zona de colonização italiana. Terra dos "gringos", como nós, gaúchos, falamos. A gringalhada que diz "tchó" em meio à gauchada que fala "tchê".

Vindos da Itália no século XIX, os imigrantes (entre eles, a família da minha mãe) trouxeram acordeons, a cultura da uva, o jogo de bocha... Lembranças da minha infância: esmagar uvas com os pés para fazer vinho, esperar os tios pararem de jogar pra brincar com as bochas... é, se a gente quiser, nada é por acaso.


Enquanto visitávamos uma vinícola, o pessoal da produção recebeu ligação de BH (onde gravaremos a parte plugada do DVD) avisando que, se quiserem colocar câmeras em meio ao público, devem reservar um espaço logo pois restam pouquíssimos ingressos.

Quatro semanas antes! No Chevrolet Hall! Caramba, quantas vidas serão necessárias para fazer jus e agradecer à cidade!?!  Sei que, a essa altura, é mais que uma cidade geográfica. Há uma galera vindo de vários pontos do país que já se agendou para participar do show. Tchê loco, que momento, que viagem! Que honra! Tamo junto, vamo junto!


bah interativo: na serra, eu, Rafa e Paulinho Goulart tocaremos com os convidados (Voo do Besouro com Duca, Milonga Orientao com Bebeto, Deserto Freezer com Borges e A Ponte Para o Dia com Gláucio). Além dessas, pretendo fazer alguma coisa sozinho. Sugestões?
06mai2014

Fonte da Saudade (147)

Nessa quinta-feira, INSULAR chega ao Rio de Janeiro. 


Morei na cidade de 1988 a 1997. 

Ali fiz inúmeros shows inesquecíveis 
e gravei 10 discos: Alívio Imediato (89),
O Papa é Pop (90), Várias Variáveis (91), GL&M (92),
Filmes de Guerrra, Canções de Amor (93), 
Gessinger Trio (96), Minuano (97), 
!Tchau Radar! (99), Surfando Karmas & DNA (2002) 
e Dançando no Campo Minado (2003).

Confesso que tentei escrever sobre o Rio 
como já fiz quando a tour passou por Poa, Sampa e Beagá. 
Mas tanto da minha vida se entrelaça em tão pouco tempo 
na cidade maravilhosa que não consegui ordenar as ideias, 
desatar os nós da lembrança. 

Coisas aparentemente desconexas 
como o nascimento da filha e jogos noturnos de futebol 
contra times de garçons na Lagoa 
pediam para ser expressos, mas não consegui. 
Humildemente desisti, deixei para outra hora.

Por hoje, fica o convite para o show da quinta 
(e para a sessão de autógrafos na 
Saraiva do Shopping Rio Sul, na terça, 19:30), ok?

E um grande beijo a todos que têm feito desta tour 
uma experiência arrebatadora 
(ao menos para mim, hehehehehe)!

28abr2014

tá legal, tô ligado! (146)


Páscoa, um feriado bacana. Chocolate e temperatura amena. Pra quem se liga (religar > religião), há um significado mais profundo: celebrar a Paixão e ressurreição de Cristo. Renascer, transcender o sofrimento.

Mesmo nas nossas pequenas vidinhas, quando tudo esta (parece estar) frustrantemente parado, algo grande pode estar em gestação. Que bicho sairá deste ovo?


Aproveitei a pausa nos ensaios neste fim de semana prolongado para dar uma geral em instrumentos que há muito não tirava do case - ou da parede - pensando na possibilidade de utilizá-los na gravação do DVD (tá chegando! que bicho vai sair desse ovo?).

POA estava vazia e silenciosa. As ruas com menos movimento, os prédios com menos luzes acesas.

O sol nascia enquanto eu fuçava num baixo que já ostentou a pintura da bandeira do Brasil e, hoje, de forma mais singela, tem a cor natural da madeira de que é feito.

Ouvi, distante, um alarme. Resquício da noite, imaginei, sem saber desde quando ele estava tocando. Fui à sacada, olhei em volta. Pela reverberação e reflexão do som nas fachadas dos prédios, era impossível descobrir de que direção vinha, se era de uma casa ou automóvel.

Disparava intermitentemente com intervalos cada vez maiores - provavelmente para prolongar a vida da bateria que alimentava aquele pedido de socorro eletrônico. À medida que a cidade acordava, os sons do dia-a-dia abafavam o alarme que, cada vez mais raramente se fazia perceber.


O alarde do alarme denunciava nossa irremediável ligação. O proprietário (provavelmente muito longe da cidade), o ladrão (sabe-se lá onde) e a vizinhança (que só queria sossego no feriado), todos ligados num mesmo enredo. Vidas invadindo vidas.

É cada vez mais importante entender que qualquer vitória individual é irrelevante. Estamos no mesmo barco. Da escala local à global, da esquina ao planeta (que já emite sinais de finitude). Estamos todos sob a mesma lua.


bah sobre o DVD: semana passada ensaiei com Rafa e Paulinho a parte acústica, que gravaremos dias 11 e 12 de maio, na serra gaúcha. Neste set (que não será aberto ao público) receberemos alguns amigos. A ideia é fazer Deserto Freezer com Borges, Voo do Besouro com Duca e Milonga OrienTao com Bebeto. Além dessas, aproveitaremos para gravar mais duas canções.


No dia 30mai será a vez do power trio: eu, Rafa e Tavares, ao vivo em BH. O repertório será basicamente o que temos tocados na tour com uma ou duas novidades.


Na minha discografia, há momentos em que o lado acústico e o pesado convergem (Novos Horizontes, por exemplo) e momentos em que cada aspecto é radicalizado (Filmes de Guerra, Canções de Amor e Dançando no Campo Minado). O plano é fazer diferente desta vez: oferecer as duas vertentes, mas cada uma em seu ambiente.

Quem leva arte a sério sabe que entre gostar e não gostar há um universo de possibilidades e que, quando se faz as coisas com paixão e sinceridade, cada obra dialoga e ressignifica as que vieram antes. Espero estar nesse time (acho que Insular jogou algumas luzes sobre Longe Demais das Capitais, por exemplo). Mas sei que, se faço parte deste seleto grupo, não é tanto por minhas virtudes. É mais pela generosidade de quem acompanha o que faço. A galera de fé, ligada desde sempre ou desde ontem.

Faremos o possível para estar à altura desses malucos e dar-lhes nosso melhor. Seja em canções suaves ou pesadas, acústicas ou plugadas, clássicos ou lados B.
abraços
22abr2014

Além do sorriso default (145)

Bah inicial: terminei o post da semana passada com a promessa de escrever sobre ideias que me passaram pela cabeça enquanto eu montava - mal e porcamente - dois gaveteiros. "Passar pela cabeça" é uma expressão precisa pois nenhuma das ideias ficou lá dentro tempo suficiente para sair articulada, com início, meio e fim; pelo que, desde já, peço desculpas. Aí vai:


Sigo perseguindo o AMOR com todas as letras maiúsculas alardeado em poemas épicos, nas maiores sinfonias e pinturas, na boa política e na verdadeira religião. Amor altruísta, absoluto, irrestrito e impessoal. À vida, ao ser humano, a ideias e ideais, a tudo e todos.

Coleciono fracassos nessa busca. Como o burrinho da anedota que tenta alcançar uma cenoura que paira a um palmo do seu nariz, sem saber que ela está presa numa vara, por sua vez, presa nele mesmo. A cada passo que avança, um passo ela se afasta. Dizem que é da natureza das utopias serem inalcançáveis. Talvez por isso eu não traga (e não leve muita fé em quem traz) sempre no rosto um sorriso default. 

Consola-me o fato de ter conhecido alguns amores mais humildes, parciais. Amores imperfeitos, de carne, osso e devaneios. Conheço - acho que conheço - o amor de filho, o paternal, o de parceiro, sensual... todos, segundo os materialistas, com uma razão prática para existir (passar o maior número de genes para a geração seguinte, defender a prole, etc...).

Será? Desconfio que não, mas não tenho argumentos para contrapor. Nem vontade de argumentar eu tenho. Entrar em contato com coisas que se ama (música, por exemplo) faz com que o ato de falar a respeito fique insignificante.

E entre um parafuso e outro mal colocado no gaveteiro, me dei conta de que não é tão pouco assim o amor que conheço. Há muitos que nem isso sentem. Talvez o todo esteja nas partes e estes pequenos amores espelhem (espalhem!) o grande amor. Na pior das hipóteses, saber o que está faltando pode ser o primeiro passo.

Mas afinal, o que esse papo tem a ver com o móvel que sofrivelmente montei? Ué, quem disse que a chave tem que ter algo a ver com a sala? Certas atividades (para mim: caminhar, jogar tênis, ouvir música, tomar um mate solito...) abrem a porta. Favorecem insights, a intuição. Na real, trata-se de olhar para dentro, para um desconhecido que já conhecemos.
15abr2014

em conserto (desta vez com S mesmo) - 144

Próximo ao topo na lista de artes/ofícios que admiro está a marcenaria. Suponho que muito do fascínio venha da minha total falta de talento para a coisa. Sou um desastre nos mais insignificantes consertos caseiros. Para trocar uma lâmpada, preciso de um manual. Mesmo assim, é possível que ela não acenda e que o manual desapareça antes mesmo de ser lido.

Desde muito cedo, revelei um enorme talento para estragar brinquedos e uma total incapacidade de consertá-los. Com o passar do tempo, este karma migrou paras as canetas de nanquim na faculdade. Depois, para os instrumentos musicais de minha carrreira/missão. Falando em instrumentos: luthiers estão no topo do topo daquela lista! Um refinamento da carpintaria e marcenaria.

Que maravilha deve ser criar elegantes e funcionais objetos a partir da madeira morta! Uma forma de redenção, trazê-la de volta à vida. Talvez esteja aí outra fonte do fascínio: impregnar de espírito um objeto; transformar um sonho em algo físico.

Há ainda, como provável fonte do fascínio, a figura bíblica de José, o carpinteiro. O próprio Jesus histórico teria sido seu aprendiz na arte/ofício. Em meio às palavras e costumes incomuns dos relatos bíblicos, "carpinteiro" era algo que a criança que eu era podia entender nos sermões da missa dominical.


Ok, o plano era aproveitar a folga nos shows para mergulhar nos preparativos do DVD. Mas, sabe como é, por mais elástica que seja a mente, há uma hora em que, de tão esticada, ela enrijece e a gente começa a andar em círculos. Hora de abrir as janelas, deixar o ar circular.

Resolvi espairecer montando dois móveis para meu estúdio. Coisa simples. Ao menos para os outros. Conhecendo meu histórico (tipo: fazer 5 furos e estragar a furadeira pra pendurar um singelo quadro), o pessoal aqui de casa sugeriu que eu chamasse mão de obra especializada. Aí virou questão de honra! Ademais, argumentei, seria um bom exercício mental, sempre se aprende algo. Zen e a arte de montar gaveteiros... 

Assim passei o fim de semana manejando erraticamente ferramentas inapropriadas (outra característica de quem não é do ramo: não ter as ferramentas certas; causa ou consequência?). O resultado não foi surpresa: bem ruinzinho!

Tudo bem, ao menos aproveitei o tempo da montagem para ouvir discos inspiradores que há muito não ouvia. E pintou esta crônica. Além de alguns insights interessantes... mas estes serão assunto de um outro texto.
08abr2014