P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 51



cada um tem o seu ponto de vista
encare a ilusão da sua ótica
os olhos dizem sim
o olhar diz não
...
sou cego
não nego
enxergo quando puder
só vejo
obscuro objeto
desejo indireto
será que você me entende?

Quando eu era guri, gostava de ouvir um comentarista esportivo das antigas. Veterano, ele havia jogado no Grêmio na década de 30. Depois de atuar como árbitro, ele ainda treinara a dupla Gre-Nal. Muitos consideram Foguinho (era este seu nome de guerra) um dos pilares sobre os quais se ergueu a tradição gaúcha do futebol-força. 

Com sua fala marcada pela troca do R por G, ele costumava vaticinar o futuro de jogadores que eram contratados sem nunca tê-los visto jogar, usando como único recurso uma olhada na foto do jornal. Claro que cometia alguns erros (achava que Falcão era “um jogadog peladeigo” - um jogador de pelada, que não guarda posição). Quando errava, acompanhar sua relutância em dar o braço a torcer fazia parte da diversão. 

Ele costumava alfinetar os colegas comentaristas que não tinham experiência de campo (e faziam teses mirabolantes cheias de palavras com muitas sílabas) num desabafo característico : “Ah, estes intelectuais do futebol...”

(*) 

Na sua chegada ao Brasil, antes de virarem padrão, os CDs eram caros; quase todos, importados. Nas poucas e pequenas lojas o atendimento geralmente era afetado, de boutique, como em alguns restaurantes metidos à besta. Entrei em uma dessas lojas, em Ipanema, e notei que o dono estava discutindo preferências musicais com um cliente. Tentei sair de fininho, mas o cara me viu e me chamou. Querendo que eu atuasse como juiz e decidisse o impasse entre eles, perguntou: “Quem toca mais, Eric Clapton ou Andrés Segovia?”.

PQP! Se eu dissesse que a pergunta não fazia o menor sentido provavelmente iniciaria uma outra querela... e eu só queria sair dali rápido. Falei “Jacob do Bandolim” (uma resposta tão boa e tão ruim quanto outra qualquer - mas a mais sincera) e sai da loja com a desculpa de que estacionara meu carro em lugar proibido.

(*) 

Adoro teses (bem construídas). Sou capaz de ficar horas falando sobre música, esporte, frutas, religião,  livros... Acho que equações matemáticas podem ser belas, assim como discursos políticos, carros populares e perfumes. Cada um com sua beleza.

Mas quando se quer usar fita métrica para comparar alhos e bugalhos, tô fora. Por que fingir que podemos ser objetivos quando amamos ou odiamos? Por que fingir que podemos ser subjetivos quando medimos e comparamos? Ah, estes intelectuais do futebol...

(*)




bah nada a ver com o texto, tudo a ver com a gente: Segundo o parceiro @romoliv, entre divulgação do NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE e shows do POUCA VOGAL, devoraremos 8550km nesta semana. A agenda tá na coluna ali ao lado. Estão todos convidados! Sempre um prazer encontrar os "@" na vida real.

E já que ele veio com números do futuro, eu vou com números do passado:

Londrina-PR; 1989, 1990, 1991, 2008, 2011.

Maringá-PR; 1989, 1990, 1991, 1994, 1997, 2002, 2005, 2006, 2008, 2010.

Fortaleza-CE; 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2010.

Recife-PE; 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1997, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2010, 2011.

Natal-RN; 1988, 1989,1993, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2011.

Quem foi? Quem vai?
Abraços
29mai2012

P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 50


a dúvida é o preço da pureza

e é inútil ter certeza

(*) Liguei a TV e dei de cara com Mister M. Vocês lembram, né? O cara que, nas "fantásticas" noites de domingo, revelava os segredos dos mágicos. Sintoma de uma era em que tudo está exposto, em que máscara e rosto trocam de lugar. Os bastidores passam a ser o show, o making of do making of do making of...

Ao ser alcançado pelo Mister M via TV a cabo numa insônia de quarto de hotel, me dei conta de que eu nunca o havia  visto. Claro, respingaram em mim várias imitações do Cid Moreira fazendo a locução do quadro e a própria personagem, que todos comentavam. Assim como, mesmo sem assistir às novelas, a gente acaba conhecendo, por via indireta, nomes e sotaques de personagens que invadem o dia a dia.

Dias antes, ao dar uma entrevista, eu me dera conta de que nunca havia ouvido a tal música do Michel Teló. Nem a Dança do Kuduro. Nunca vi. Não entendo por que, hoje, tanta gente tanto reclama dos modismos. Eles são bem menos avassaladores do que eram quando nossas opções de (des)informação eram menores.


(*) Numa outra entrevista, me pediram para falar de uma banda que fizera uma música sobre minha banda. Expliquei que não sabia do que se tratava. O jornalista me mandou um link com o video. Estava ali, na ponta dos meus dedos, a um toque de distância, a informação que daria seguimento à matéria. Simples, só clicar. Simples... se eu não fosse eu.

Será que eu queria me ver como me vê quem me vê como um ícone (seja lá do que for)? Se eu fosse um profissional de mim mesmo, certamente deveria ver. Mas... será que sou? Quero ser?

(*) Em tempos idos, valia para a informação a equação "quanto mais, melhor". Será que ainda vale? Agora que ela é abundante e redundante, surge outra questão: o que NÃO saber. Não creio que aquela equação valha hoje em dia. Como não creio que valha, nesse caso, a equação "menos é mais". Quem aí está disposto a viver sem a verdade tranquilizadora das equações? Eu.

(*) Questão delicada, esta da (des)informação: uma vez que sabemos algo, é inútil fingir que ignoramos. Numa das mágicas reveladas pelo Mister M, quando aberta uma caixa, flores saltavam. Um efeito de mola encolhida que é libertada. Depois, o mágico podia forçar as flores de volta para a caixa e repetir o truque... Mas quando a caixa de Pandora da informação é aberta, não há volta. Colocar a pasta de dentes de volta ao tubo? Nah, não tem volta.

Ciclicamente, no mundo da música pop, pintam momentos em que a proficiência técnica é mal vista. Foi assim no punk e no grunge. É engraçado ver, nesses momentos, músicos estudados querendo acompanhar a onda, simulando uma inocência pra sempre perdida e escondendo sob o tapete habilidades que poderiam levar a novos caminhos. Por achar, equivocadamente, que técnica e espontaneidade são incompatíveis, ficam sem nenhuma das duas. O "pior dos mundo". Nem barro nem tijolo.

(*) Uma criança escrevendo poemas num quarto, um jovem projetando prédios na escola de arquitetura, um músico tocando para multidões.
 Já percorri estas 3 estradas. O que sei delas? Que todas têm a mesma curva. Um ponto onde a gente começa a tirar em vez de colocar. Aí é que começa a ficar interessante: quando começamos a selecionar! Enquanto corremos na velocidade máxima que o carro permite, somos meros prisioneiros de suas limitações.

cansei de alimentar os motores
 
agora quero freios e airbag

bah: enquanto escrevia este texto fiquei sabendo que o botafoguense Herrera declinou convite para escolher uma canção que servisse de trilha a uma “fantástica” gracinha da TV. Legal e surpreendente! Não escolher foi sua escolha!

um abraço entre antenas
...
o que captar?
do que escapar?
22mai2012


P(*)EMAS C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 49


(*) Dei uma rápida olhada na minha agenda e vi que o bicho vai pegar. O couro vai comer, a cobra vai fumar. Semanas cheias de viagens pela frente. Para tocar com o Pouca Vogal e para falar  sobre o NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. É agora que o livro nasce, gerado pelos olhos de quem lê. O prazer de encontrar leitores e ouvintes na estrada compensa a correria. Então, que venham as entrelinhas amarelas no asfalto negro!

Antes de mergulhar de corpo e alma na arte/ofício de músico, eu havia viajado pouquíssimo. Nunca de avião. A maior distância percorrida era a que separa POA de alguma praia em Santa Catarina. Turismo nunca fez minha cabeça. Viajar nas asas da minha arte/ofício, eu curto. Já passam de 500 as cidades que conheci nesta caminhada.

Fazendo um trabalho de filosofia, no colégio, descobri que o genial filósofo Imannuel Kant nunca saiu de sua cidade natal. Estamos falando do século XVIII, época em que a informação não circulava como hoje. Dá o que pensar... Se ele tivesse conhecido mais do mundo, seu pensamento ganharia abrangência? Impossível saber. Talvez perdesse profundidade. Ônus e bônus, irmãos siameses, inseparáveis.

se eu fosse um cara diferente
sabe lá como eu seria

(*) Há algum tempo, ouvi um médico num programa de rádio. Ele enfatizava a importância de uma quantidade mínima de sono por dia (7 ou 8 horas, já não lembro). O apresentador do programa, orgulhoso de dormir pouco, contra-argumentou que Napoleão fez tudo que fez dormindo só 4 ou 5 horas (também não lembro). Sem se abalar, o especialista respondeu que, se dormisse mais, Bonaparte faria ainda mais. Será? Impossível saber. Talvez fizesse poemas em vez de guerras. Ônus e bônus, mais uma vez esta duplinha vem nos lembrar que a moeda tem dois lados.



(*) Houve uma forma de se pensar a história em que os dados biográficos das grandes figuras acrescentavam um sutil tempero a seus feitos (a vida regrada e monótona de Kant, o sono de Napoleão). Hoje, a sutileza dançou. Parece que a vida pessoal vem na frente e acima da obra, né? 


Mudando de saco pra mala (pra ficar no mesmo tema): só conheço dois refrões da Madona, mas sei dos seus namoros, das suas manias, da sua família, até onde mora... já vi muito mais vezes o umbigo da Shakira do que o meu próprio. A vida pessoal acima e na frente da obra.

Sheryl Crow reclamou, numa entrevista, que, no mundo pop americano, estão em extinção as canções de personagens (como as mulheres criadas por Chico Buarque). Ela dizia que só na música country a tradição seguia. Imagino que seja porque o mundo pop, por contraditório que pareça, quer sangue-suor-e-lágrimas de verdade. Na primeira pessoa. E quer ao vivo.

A música, no mundo pop, é só um detalhe de uma experiência que se quer total e avassaladora e que inclui filme, livro, roupas, perfume, carros, telefones, games e.... refrigerantes. É claro que este sangue-suor-e-lágrimas "de verdade" quase sempre é "de mentira". Mas isso é só um detalhe. Mais um de infinitos detalhes num mundo onde não há o principal.

Interessa ao mundo pop que se confunda realidade e ficção, ator e personagem. Não são poupados esforços pra fazer de conta que Beckham jogava alguma coisa e que Paris Hilton era alguma coisa.

(*) Vida + obra; pé no chão + cabeça nas nuvens... Entre ser prisioneiro da realidade e ficar  ficar alheio a ela, há um amplo terreno no qual podemos nos mover. Mas, afinal, o que é a realidade? Porra, que perguntinha danada para um fim de post, né?


(*)

Bah 1: sobre participação em eventos literários, escrevi este texto no ano passado: http://blogessinger.blogspot.com.br/2011/10/feiras-do-livro.html

Bah 2:  se dei a entender que as coisas estão piores hoje do que já foram, me expressei mal. No embaralhamento entre ficção e realidade (especificamente neste ponto) não vejo diferença entre Beatles e Lady Gaga.

Bah do bah: não percam tempo nos comentários discutindo se Beatles é igual a Lady Gaga, ok? Minha proposição é um pouco mais profunda do que isso. Apesar de ainda ser rala, pop.

Bah 3: raciocínio lógico não é meu forte. Tenho dificuldade de ler os grandes filósofos, físicos e matemáticos. Mas gosto de ler sobre suas vidas e obras. Descobri que a forma como estes caras fazem suas grandes descobertas é muito parecida com a criação artística. E pode incluir nesta lista as grandes donas de casa e os grandes amigos. Artistas da vida real.

um abraço 
entre vida e obra
entre a realidade
e a representação da realidade
15mai2012

P(*)EMA C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 48

só um rascunho
pelo jeito a mão tremia
pelo jeito pretendia
dar um jeito num outro dia

(*) Então, compañeros, como foi a semana?

Por aqui, as bergamotas voltaram a aparecer na janela da cozinha, a lua (cheia de si)  esteve no seu ponto mais próximo da terra, fiz a twitcam de 25 anos d’A REVOLTA DOS DÂNDIS. Foi um bom ciclo de sete dias.


Para fechar a semana, hoje ganhei um presente do amigo @poetapoeteiro: um exemplar de   Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro, encontrado num sebo, pertenceu a meu pai, tem sua assinatura e anotações nas margens. Até veio com a nota fiscal: 17set1951. Memórias póstumas. Irradiação fóssil.

(*) Ciclos... há para todos os gostos: do frenético ponteiro dos segundos ao cauteloso ponteiro das horas. O sangue dando uma volta pelo nosso corpo, um tanto a cada batida do coração. A terra dando uma volta em torno do sol (ou o sol girando e a terra parada, para quem prefere). Ciclos... há para todos os gostos.

Palavra<frase<parágrafo<capítulo<livro. Para baixo ainda temos a letra. Para cima,  a biblioteca. Para frente, para trás, para cima e para baixo. Ciclos... macro, micro, infinito para todos os lados.

Nota<compasso<refrão<canção<disco<carreira. Ok, chega de exemplos. Vocês são espertos, já deu pra sacar, né?






(*) Posso estar enganado, vendo coisas distorcidas pelo cansaço dos olhos, mas me parece que há um desequilíbrio entre quantidade e qualidade de informação nos dias que correm. Vejo pessoas se apropriando de ideias sem citar a origem (nada mais chato do que conversar com gente que pensa ter composto as músicas que escrevi). Por outro lado, já li, atribuídos a mim, aforismos que não criei. Um deles diz “só há dois dias em que não podemos fazer nada por nossas vidas: ontem e amanhã”. Ok, até pode ser... mas não tem muito a ver com minha maneira de sentir e viver os ciclos.

Na minha última ida a um cemitério (não se preocupem, no momento em que escrevo, estou vivo... eu acho) vi alguns cartazes com aforismos colados nas paredes. Imagino que estejam ali para acalentar e distrair as pessoas. Um deles dizia que, em vez de caçarmos borboletas, devemos cuidar do jardim para atraí-las. Tenho lido esta frase por aí, repetidamente, às vezes atribuída a Mário Quintana (não sei se é dele e não vou ao google me certificar pois não é esta a questão aqui). Se é tão repetida, a frase, deve revelar alguma coisa dos tempos que correm.

A primeira leitura é óbvia: não force a barra... deixe que coisas boas aconteçam como consequência de   boas ações... faz o teu bem feito e não esquenta a cabeça...  Mas sempre que ouço ou leio a frase, ao contrário de uma cena bucólica vivida por alguém centrado e bem resolvido, me vem à mente uma imagem oposta: alguém cuidando do jardim freneticamente,  sem prestar muita atenção no que faz, a mão nervosa segurando um punhado de terra, a cabeça virada, o olhar tenso lá longe como se os olhos fossem redes de caçar borboleta. 

Normal... as palavras (e os aforismos), em vez de descrições e certezas, quase sempre revelam desejos e sonhos.



bah 1: a banana é considerada a fruta com melhor design, mas, para mim, bergamota tem a melhor embalagem já concebida.

bah do bah: tangerina, mexerica, bergamota, vergamota, mimosa... várias palavras, o mesmo sabor. Se a embalagem tava pronta, agora temos um slogan! Dá até pra fazer um jingle.

bah 2: isto tudo é um rascunho. Não tive tempo para elaborar. Quando tive, achei melhor não. Vez por outra, em vez de tentar harmonizar os ciclos, é bom aceitar o caos.

bah 3: Então, compañeros, como estão os ciclos (grandes e pequenos) para vocês?

um abraço passado a limpo
08mai2012

DISC(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 47



as vozes oficiais dizem "quem sabe"
dizem "talvez"
enquanto os videos e as revistas
mostram imagens sem nitidez

No dia 06mai, via twitcam, tocarei, na íntegra, A REVOLTA DOS DÂNDIS. Difícil falar sobre este disco. Talvez eu saiba pouco sobre o que ele é, o que ele se tornou. Mas encontro com frequência o alemãozinho que escreveu as músicas. Continua o mesmo; alguns quilos mais velho, alguns anos mais gordo, algumas canções mais sonhador, mas basicamente o mesmo. Quando falei que tocaria três músicas do disco na sanfona, ele veio com essa: “o sanfoneiro, o baixista e o goleiro tem algo em comum: não podem ter mãos de alface. Se tiver mão de manteiga, o fole engole”.  O fole engole... fiquei com a impressão de que, ao falar isso, ele já compunha outra canção.

{ Nós que vivemos intensamente nossas buscas, prisioneiros de nossa liberdade, entendemos o que ele quis dizer. Nós que ouvimos vozes e seguimos visões temos que negociar o dia a dia com pessoas que vivem sem intensidade uma felicidade burocrática (ou um ranço automático) e repetem com boca frouxa: pega leve, nada é tão sério, relax... Como se fosse uma opção ter as mãos cheias de calos ou tê-las de alface, de manteiga. }

E lá se foi o alemãozinho, apressado, carregando nas costas algumas raquetes (ou um bandolim) antes que eu pudesse compartilhar um paralelo que me ocorreu: ele gravou os baixos d'A REVOLTA DOS DÂNDIS sabendo tanto do instrumento quanto eu sei, hoje, da sanfona. Quase nada.

(*) 


Numa roda de chimarrão, ouvi uma conversa interessante entre o alemãozinho que cantou A REVOLTA DOS DÂNDIS e o moicano que tocou bandolim na tour ACÚSTICO MTV. Este dizia àquele que as plateias estavam ficando com preguiça de ouvir material novo. Aquele retrucou que sempre fora assim, que havia tocado várias vezes Terra de Gigantes, Refrão de Bolero e Infinita Highway para plateias que não se ligavam muito, antes das músicas estourarem. Disse que sempre haverá um pessoal que precisa de legendas,  de um desenho explicando, de um segundo toque do despertador, de um empurrão para sair do burocrático modo automático.

(*) 


Eu sou moscão (palavra que, na minha juventude portoalegrense, designava os trouxas, os devagar, os... moscões), não sei de nada, mas aprendo muito ouvindo os papos destes meus amigos. O alemãozinho, o moicano, o cara de trancinhas da capa do !TCHAU RADAR!, o bigodudo que toca viola caipira no NOVOS HORIZONTES, o maluco que toca com os pés num power-duo usando terno azul... aprendo e me divirto muito com eles.

Entre um cafezinho e outro, conversamos sobre os passados pré-fabricados que a gente vê por aí. E morremos de rir da maneira como algumas histórias são recontadas glorificando trajetórias que (quem viveu a época sabe) sempre foram oportunistas; esquecendo coisas importantes, criando soluções para problemas que nunca existiram. Eu e meus amigos achamos graça destas mentiras repetidas até virarem verdades. Morremos de rir pra não viver chorando.

(*) 


Prevendo que escreveria este texto, perguntei ao alemãozinho que criou as letras d'A REVOLTA DOS DÂNDIS qual é, afinal, a deste disco. Ele disse que não tinha nada a acrescentar (já tá tudo no disco), mas que talvez a frieza dos números pudesse revelar algo poético: foi um dos poucos álbuns dos EngHaw que não ganharam disco de ouro, apesar de ter ultrapassado em muito as 100.000 unidades vendidas. Para ganhar esta medalha da indústria fonográfica, o número mágico tinha que ser atingido em um ano. A REVOLTA DOS DÂNDIS não respeitou o limite de tempo. Este disco torto fez sua estrada. Torta. E longa.




Quando me deu os originais acima, o alemãozinho (fã do Homem Revoltado, de Camus) falou confusamente do Farenheit 451...


{ ... livro de Ray Bradbury, transformado em filme por François Truffaut. Na história, os livros eram proibidos. Todos que fossem encontrados eram queimados por uma polícia especializada nisso (sem livros é mais fácil pré-fabricar passados). Alguns rebeldes dedicavam sua vida a decorar um livro inteiro para que o conteúdo não se perdesse quando o último exemplar fosse destruído. }

... e disse: “Pode ficar com estes papéis, eu tenho A REVOLTA DOS DÂNDIS na mente. E no coração.”

(*)


Bah 1:  No dia **, via twitcam, tocarei, na íntegra *************** . Difícil falar sobre este disco. 
Eu poderia usar este início de texto em todas as postagens referentes às twitcams temáticas. Automaticamente. Como as lojas programam tweets com ofertas para serem disparados durante o dia. Uma forma de estar presente estando ausente. Burocraticamente. Mas, hey, não devemos mentir só porque a verdade é repetitiva, né? Dá pra dizer muito com palavras gastas e frases feitas, se atrás de palavras e frases fracas estiver a força da sinceridade. Novidade não pode ser desculpa para falta de talento. Prefiro uma banda cover de verdade do que uma banda autoral de mentira.


Bah 2: outra que repito sempre nestes posts e sempre é verdadeira: mais detalhes (e detalhes mais objetivos) sobre A REVOLTA DOS DÂNDIS são encontrados nos livros PRA SER SINCERO, MAPAS DO ACASO e no  www.engenheirosdohawaii.com.br

Special Bah: Esta twitcam terá a participação muito especial de Carlos Maltz nos tambores. É sempre bom reencontrá-lo. Já não é como antigamente, pois assim é que deve que ser: diferente de antigamente. Sem botox emocional, sem Grecin 2000 afetivo. Sem burocrático piloto automático. Sempre bacana. Jamais encontrarei um parceiro tão intenso e desprendido. A cada dia que passa sinto mais orgulho do que fizemos sem nos render à sedução do caminho mais facil. Sob a luz do pragmatismo e do babaovismo que imperam nos dias de hoje, até é difícil acreditar que tenhamos construído o nosso caminho.



Bah da Parceria: A REVOLTA DOS DÂNDIS gira há 25 anos. Vocês devem (saber)sentir muito (d)este disco. Por favor, compartilhem estas (sabedorias)sensações nos comentários. Aprendo e me divirto muito lendo o que vocês escrevem. Como aprendo e me divirto tomando chá com o rasta que tocava Números no Leblon, com o bombachudo que tocava Causa Mortis na Faculdade de Arquitetura, com o cara que empunhava guitarras Gibson semi-acústicas de cabelo espetado em canções de guerra e filmes de amor.


como sempre, um abraço como nunca
01mai2012
Feliz Dia do Trabalho!
(do Trabalhador, né?)

OS PINGOS NOS ii - 46


Se existisse o Evangelho Segundo Meu Comentarista Esportivo Favorito, lá estaria escrito que técnico bom é aquele que sabe por que ganha e sabe por que perde. Parece simples... mas não é.

Obter os dados é só o início. Nos nossos dias, é mais difícil ler corretamente as informações do que obtê-las. O melhor exemplo disso é aquela piada sobre pesquisa médica: “segundo as estatísticas, doenças do pulmão aumentam o consumo de cigarro”. Uma caricata confusão entre causa e consequência. Mais comum do que se possa imaginar.

{ Às pessoas que me pedem letras pensando que fiz sucesso por causa delas, eu gostaria de dizer que talvez eu tenha feito sucesso apesar delas. Aos que me pedem melodias achando que fiz sucesso por causa delas, gostaria de dizer que talvez eu tenha feito sucesso apesar delas. Aos que me pedem para tocar/cantar/escrever... mesma coisa. Se, impacientes, me perguntassem, afinal, por que fiz sucesso, eu diria que talvez eu não tenha feito. }

Talvez causa e consequência estejam, permanentemente, dançando como um casal apaixonado, girando, girando, rodopiando pelo saloon. Se um pistoleiro entrasse chutando a porta e desse um tiro numa, mataria as duas.  

Ok, vamos adiante. Já tens os dados e tens certeza de que não confundirás causas e consequências? Sinto dizer que isto pode não significar nada. A mão trêmula do acaso pode erguer a peça que dará xeque-mate nas nossas pretensões de entender os porquês. Como um elástico esticado mais do que aguenta, a linha que liga causa e consequência pode se romper. É o que acontece, às vezes: ficamos órfãos de explicação para muita coisa que, simplesmente... acontece. 


Talvez causa e consequência não dancem a mesma música, nem caibam no mesmo saloon.

E não adianta forçarmos a barra para adaptar a realidade às nossas teses, como quem quer encher uma mala com mais roupa do que cabe. Algumas malas ainda são generosas, se deformam, vão aceitando, até explodir o zíper. Uma hora explode (os copos são mais diretos: só aceitam uma quantidade exata de líquido, nenhuma gota a mais).

A elegância de uma explicação não garante sua eficácia.


A necessidade de uma explicação não garante sua existência.

{ Na saída das aulas do curso pré-vestibular, eu passava por uma calçada onde caía uma lenta chuva de ar condicionado. Pingos esparsos que, vez por outra,  caiam na cabeça dos pedestres. Eram tempos anteriores à legislação que, agora, exige uma mangueira no aparelho. 

Na ânsia de saber se meu futuro estaria na Escola de Arquitetura ou se levaria bomba no vestibular, um dia eu bolei um mix de pesquisa e passe de mágica (uma mistura de bola de cristal e simpatia): se eu fosse atingido por um único pingo no trajeto, eu passaria no vestibular. 

Apesar do tráfego intenso de pedestres, não era difícil seguir em linha reta e velocidade constante (na pesquisa/simpatia era proibido olhar pra cima para não quebrar a aleatoriedade). Andei os primeiros passos e... nada. Passei da metade e... parecia estar em meio à seca do nordeste, deixando o Cariri no último pau de arara: nenhuma gota! Eu já me imaginava rodando no vestibular, decidindo o que fazer da vida. Meu corpo ainda esperava uma gota, mas minha mente já estava sofrendo meses à frente. 


Melancólico, eu andava olhando para o chão. Pela mudança do tipo de piso à frente senti que estava andando os últimos metros. As probabilidades estavam contra mim. Vinda do que talvez fosse o último aparelho de ar condicionado do prédio, uma gota atingiu minha cabeça. Eu fora batizado! Alguns meses depois, passei no vestibular.

Parece um final feliz, mas preciso fazer uma confissão para os que ainda não sabem que sou canalha: naqueles últimos passos, aproveitando que uma senhora  atravessou o meu caminho, dei uma imperceptível pedalada e retardei o fim do percurso em uma fração de segundos. É bem provável que só por isso o pingo do ar condicionado me atingiu, passei no vestibular para Arquitetura, onde montei uma banda, casei com uma colega, tive uma filha que tem um cachorro, escrevo neste blog. Pronto, agora vocês sabem: sou uma farsa. }

Bah 1: pra quem quer saber porque ganha e porque perde, esqueci de mencionar mais uma dificuldade: ao contrário dos esportes, na vida nem sempre é fácil distinguir as vitória das derrotas.

Bah 2: saber por que, porque e porquê é difícil também na escrita. Vivo separando erroneamente, juntando quando não deveria. Também costumo acentuar mesmo sabendo que acento não há, como quem diz : no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


Bah 3: Muitos de vocês devem conhecer alguém que se acha muito azarado, que sempre está a um passo de estourar, arrasar, chegar lá, mas... nunca consegue. É um tipo comum, eu mesmo conheço alguns. Olhando de perto se descobre que, na real, são pessoas com muita sorte que, incrivelmente, chegaram tão longe! 


Castilhos, goleiro do Fluminense nos anos 50, era considerado muito sortudo. Perguntado a respeito das inúmeras bolas que batiam na trave, ele respondia que, na verdade, era muito azarado, pois a bola podia ir em infinitas direções e batia justo nos poucos centímetros da trave! 


Bah do bah anterior: Nao me tome por obscurantista, nao creio em sorte ou azar, pero...

Bah final: tenho escrito sobre shows, discos e livros. Já estava com saudade de um post assim, com devaneios inúteis.

A todos, um abraço inútil. Inútil, pero...
24abr2012 

1(*).(*)(*)(*) HORIZONTES - 45


Parece que foi ontem (à tardinha) que a editora Belas Letras me convidou para escrever meu primeiro livro. Fiquei cheio de dedos, mas era pra falar do meu time, para uma coleção... aceitei.
Parece que foi hoje (de manhã) que a editora Belas Letras me convidou para escrever o PRA SER SINCERO. Fiquei cheio de dedos, tenho respeito e paixão pela palavra escrita em geral e pelo livro em particular.   Não queria entrar “de bicão” nesta, tenho os dois pés atrás com caras polivalentes... pensei... aceitei.
Parece que lanço livros há 10.000 anos. 10.000 felizes anos repletos de sessões de autógrafo onde observo o carinho com que as pessoas carregam um livro. Mais cuidadosas do que são com discos, apesar destes serem mais frágeis do que aqueles.
Nos bate-papos literários, nas feiras de livro, é comum me pedirem pra falar sobre diferenças e semelhanças entre música e literatura, discos e livros. Música é uma forma de arte mais ambiciosa, na minha opinião, a que mais se aproxima do sublime. Mas a literatura é deliciosamente humana. Talvez por juntar a solidão de quem escreve com a solidão de quem lê, dá sensação de intimidade. “Parceria” talvez seja a palavra certa pois o leitor tem que reconstruir todos os sentimentos e pensamentos do autor, codificados em símbolos gráficos extremamente abstratos. Pequenas manchas no papel, ordenadas de forma específica, ganham vida. Pura magia. O leitor é menos passivo do que o ouvinte. E infinitamente menos passivo do que um espectador de cinema. 
Estou lançando meu quarto livro, NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE. Na primeira parte (que se chama O Dia Em Que Deixei De Ser Criança) falo de inúmeros ritos de passagem que, irônicamente, às vezes passam despercebidos. Detalhes cotidianos, entrelinhas de um texto que só saltam aos olhos num olhar mais abrangente, contra o pano de fundo do horizonte. A magia de um momento fugaz na perspectiva que só o tempo dá.  Viagens entre micro e macro, do pessoal ao geracional ao universal e de volta ao pessoal.
A segunda parte é composta por textos que tiveram sua primeira versão publicada aqui, no BloGessinger, mas foram reescritos. Há uma frase corrente no meio editorial que sempre achei engraçada: “Blogueiro é um pichador que usa ponto final”.  Sob o chiste preconceituoso, há uma lição: nem sempre o imediatismo e a fragmentação naturais de um blog se justificam em um livro. Percorrer o caminho entre as duas linguagens (quase uma tradução de blog pra livro) me trouxe à mente a relação entre discos de estúdio e discos ao vivo. Nos primeiros, a novidade. Nos segundos, novas versões de músicas conhecidas com a participação do público. 
Ops, melhor parar de falar do conteúdo para não estragar a experiência da primeira leitura, né? Da capa, posso falar. E tentar descobrir possíveis influências no seu desenho.
Minha ideia original era voltar ao local onde foi feita a foto da capa do Longe Demais Das Capitais com Eurico Salis, o mesmo fotógrafo do disco. Achar o mesmo ponto da câmera, mesmo horizonte, 26 anos depois. Logo descobrimos que o local está irreconhecível, só iriam sacar que era o mesmo se a capa viesse com uma bula explicando. Optei, então, por um horizonte na serra gaúcha, muito significativo para mim.
A nova locação trouxe a possibilidade de incluir outro elemento: a dualidade fora/dentro. O horizonte, por contradição, sempre me parece mais intenso visto através de uma janela de carro, de quarto, de trem, de avião... e veio a ideia de fazer um recorte na capa, realizar a janela. É um lance lúdico, quase uma brincadeira infantil, que valoriza o livro como objeto físico. Legal sublinhar isso pois, pelo andar da carruagem, não sei até quando os livros de papel sobreviverão.
Uma foto no mesmo local vários anos depois causa em mim o mesmo efeito de uma foto onde apareço várias vezes. Uma brincadeira com o espaço/tempo. Talvez por isso, na impossibilidade de voltar ao local longe demais da capital, inconscientemente, repetimos o truque da capa do Pouca Vogal.
Ops, melhor parar de falar da capa... e ver alguma coisa, né?
outdoor/indoor: o início
pintou a ideia do corte
e foi registrada numa toalha de papel
no café da manhã de um hotel no interior de Minas
será que a ideia veio de um destes?
os elementos foram se definindo
outdoor/indoor... quadro/janela...
 talvez a ideia do amarelo/preto tenha vindo do verde/preto...
nah, acho que tô viajando!
fotoxópi? não sei do que se trata

Zero Berto, Um Berto, All Bertos
(by Melissa Mattos)
parece que foi ontem... taí!
nunca tinha notado este tipo de placa.
agora salta aos olhos
Todos nós, envolvidos na feitura livro, estamos muito satisfeitos com o resultado. E ansiosos para saber   o que pensarão/sentirão todos os envolvidos na leitura do livro! 

A Stereophonica vai continuar fazendo o que fez com Meu Pequeno Gremista, Pra Ser Sincero, Mapas do Acaso e HGenda: servir um café delicioso às segundas-feiras para que eu autografe os livros. É sempre mágico imaginar onde cada exemplar vai parar. Taqui o link (só para o livro com autógrafo personalizado, o café não está incluído, é um pequeno grande privilégio do autor):  http://str.ph/entrelinhasdohorizonte 

Um abraço para todos!
Nos encontramos na estrada que o livro traçar, ok?
Um superagradecimento à parceirinha de sites, discos, livros, delírios visuais e seu bloquinho de anotações:


Valeu, Messy.
17abr2012

bah: se quiserem compartilhar alguma experiência de leitura dos livros anteriores, das feiras de livro ou das sessões de autógrafo, soltem o verbo nos comentários! Tem sido um show à parte. Pena que não dá pra  colocar foto ali... ia sugerir que pousassem em frente a janelas... seria legal ver 10.000 Horizontes. Novos Destinos.

DISC(*) C(*)M N(*)TAS DE R(*)DAPÉ - 44


(*) Gravei a demo do disco OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM num Portastudio Tascam que eu havia comprado do Augusto Licks antes de sua entrada na banda. O aparelho gravava em 4 canais, usando os dois lados de uma fita K7. Usei uma bateria eletrônica Roland 808, que anos depois viraria o xodó vintage de quem faz música eletrônica. Com a cabeça cheia de ideias e o coração ansioso para ouvi-las, não quis perder tempo lendo o manual do equipamento. Esta negligência transformou os dias de gravação num misto de paraíso criativo e inferno de luzes vermelhas piscando.

(*) Olhando a capa do disco, agora, tento me lembrar porque decidimos usar fotos em pretibranco. Não consigo. As camisas que eu e Carlos estávamos usando tinham cores lisérgicas, teriam ficado legais em cores. Já eram retrô na época. Salvei-as do lixo: eram setentices que o pai da Adriane não queria mais no guarda-roupas. Se fôssemos camisas, eu diria: "a vida é assim, num dia estamos no lixo; no outro, em capas de disco". Talvez a frase também valha para seres humanos...

A capa do LP seguia a divisão do quadrado em 9 quadrados menores já usada n’A REVOLTA DOS DÂNDIS. VÁRIAS VARIÁVEIS, o terceiro da trilogia com as cores da bandeira gaúcha, deveria ter a mesma grade mas não resisti à enxurrada de engrenagens que pintaram no disco verde. Outro motivo para o abandono: se avizinhava a dominância do CD cujo tamanho equivalia a um dos quadrados menores. 

Nas primeiras tiragens do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM havia cortes na capa através dos quais apareciam as fotos do encarte. O pessoal da fábrica reclamou muito pois muitas capas eram danificadas na pressa da linha de montagem. Uma lição que a vida real deu a este estudante de arquitetura. Reforçou algo que eu já sentia: admiração pelo design simples, funcional; e um certo desencanto com firulas. Me interessa muito mais conversar sobre o design de carros populares, por exemplo, do que sobre carros de boutique, feitos a mão, que custam milhões. Se me oferecessem escolher entre desenhar o novo Ford Ka ou a nova versão para as ruas da McLaren F1, eu acharia mais interessante o desafio do carrinho 1.0. Desenhar um coffee table book com capa dourada ou um fanzine mimeografado? Mimeógrafo já!

Bach acabou a sua vida escrevendo música em estado puro, quase uma abstração: deixou de anotar na partitura para que instrumento estava destinada, qual era o andamento. Tudo que ele fez é genial, mas eu, modestamente, prefiro seus trabalhos pragmáticos, destinados a coisas específicas: as Missas e Paixões, os estudos para teclado, as variações Goldberg (encomendadas por um conde que sofria de insônia).

Gosto dos comprometimentos da vida real, da relação custo/benefício no design, da influência do travesseiro no sonho. Compor pensando nas limitações de determinados músicos ou formatos (duo, trio, quarteto) mais me estimula do que inibe. O mundo ideal, eu deixo para a outra vida. Gosto dos ruídos desta.

(*) OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM foi gravado no estúdio mais aconchegante que conheci: a sala menor da RCA, em São Paulo. Havia vários instrumentos bacanas à disposição; entre eles, duas raridades: um baixo Rickenbacker azul e uma guitarra Fender de XII cordas. Xodós vintage...

Foram anos bem paulistas. O Rio de Janeiro havia sido o primeiro estado a nos adotar. São Paulo começava a nos entender. OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM e VÁRIAS VARIÁVEIS, na minha cabeça, têm sotaque paulista.

(*) Gosto de entrar em campo com um plano de jogo traçado. A vida, às vezes (quase sempre), nos leva a rever ou até ignorar esses planos. Mas isto nunca me pareceu justificativa para não fazê-los. Nunca pensei em planos como uma prisão, sempre os vi como sonhos. Desconfio de pessoas que valorizam muito a espontaneidade. Coloco no mesmo time das pessoas que falam muito de amor, fé... São coisas que não se busca: elas, simplesmente, são. São desde sempre. São antes de se pensar nelas.

Por entrar em estúdio com um plano de disco traçado, raramente gravei material que não fosse aproveitado. Na verdade, a única vez foi neste disco. Como as músicas são mais de quem ouve do que de quem fez, não vou falar das que já foram ouvidas. Só falarei da canção que ficou de fora do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM. E se perdeu. Para sempre. Nem Maltz e Licks ouviram.

Se chamava Palitos de Fósforo. Usava este objeto, que sempre me fascinou, como metáfora para coisas efêmeras, belas e fugazes. Muitas vezes andam de mãos dadas o sublime e a impermanência.

Nós gravávamos sem clique. Baixo e bateria, na mesma sala, olho no olho, concentração total no pulsar. A voz eu colocava depois que Augustinho gravasse a guitarra. Quando fui gravar a voz de Palitos de Fósforo me dei conta de que havíamos nos emocionado demais e perdido o controle do andamento. A base estava muito rápida. A letra soava estranha, a música perdia o sentido naquela velocidade. Desisti. Nem cheguei gravar toda a letra. Em alguma caixa de um depósito deve haver uma música incompleta, cantada pela metade.

Às vezes sonho com esta música. Já sonhei que a capa do OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM era a cabeça de um palito de fósforo no momento do início da chama, quando ela parece mais rebelde e incontrolável, antes de virar aquele foguinho domesticado. Gosto da pequena explosão, do som de fogo e fricção entre palito e caixa. Frações de segundo.  Acontece milhares de vezes em milhares de cozinhas todos o dias. Nem por isso deixa de me fascinar. Quantos mil iPads precisamos para sentir o que sentiam nossos ancestrais vendo o fogo numa caverna?

Gosto da palavra “fósforo”. Sei falá-la emitindo o mesmo som que um fósforo faz ao queimar. “ffffFFÓSSSSSSFOROoooo”. Gosto de palavras. Do som e do desenho. A palavra “anxiety” falada num bom inglês é música para mim, mesmo que seu significado seja desagradável.

(*) OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM é um disco que ficou espremido entre A REVOLTA DOS DÂNDIS e ALÍVIO IMEDIATO (o primeiro teve um estouro tardio - a música que a gravadora mandou para as rádios foi A REVOLTA DOS DÂNDIS I, mas espontaneamente começaram a tocar INFINITA HIGHWAY, TERRA DE GIGANTES, REFRÃO DE BOLERO... quando OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM começava a abrir suas asas, lançamos ALÍVIO IMEDIATO - mas eu acho ótimo que a ansiedade criativa tenha falado mais alto do que o bom senso). 


Se alguém quiser contar um pouco de sua relação com este disco e seus mistérios, os comentários estão aí para isso.

(*) Comecei o texto falando no Augusto, falarei dele para encerrar. Neste disco apareceram nossas primeiras parcerias. 3 canções. Ao todo fizemos 11. Espero que esta conta não esteja fechada. Ele foi o músico mais caprichoso com quem já tive o prazer de tocar. Não sei (nunca soube ou não me lembro) se ele pensava com inteligência e sentia com emoção; mas na sua música estes dois ingredientes, sem dúvida, estão presentes.


(*) Na twitcam de abril tocarei o álbum OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM na íntegra. Dia 11, quarta feira, 22 horas. Há mais detalhes sobre o disco nos livros PRA SER SINCERO e MAPAS DO ACASO e no site www.engenheirosdohawaii.com.br

abraços 
mais calorosos e iluminados
(mas menos fugazes) 
do que a chama de um 
ffffFFÓSSSSSSFOROoooooo
10abr2012

C(*)NT(*) SEM N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 43


O cara quase desistiu no engarrafamento da chegada. Ele já não tem muita paciência para aguentar o estado selvagem que o ser humano assume quando está em multidão. E era uma multidão que se encaminhava ao estádio.

O cara já não é guri. Assistiria ao show ao lado da mulher e da filha. Dois bons motivos para não desistir. Pensava nisso já acomodado no seu lugar. Admirou as lonas pretas que cobriam todas as incontáveis propagandas do estádio. Até quando algo assim seria possível? O cara intuiu que seria a última vez que veria, ou melhor, “não veria” propagandas num show.

Quando começaram as olas na arquibancada, o cara ativou o modo “invisível”. A ola passava por ele sem se perturbar com sua imobilidade. Dizem que o mar é o local mais seguro para se estar durante um tsunami. O cara estava assim; concentrado, submerso, invisível.

Começou o show e, com ele, os soluços de choro. E, com eles, o medo de dar bandeira. Uma piada da filha o fez voltar à normalidade antes que alguém notasse as lágrimas. {Logo no primeiro efeito especial, ela detonou, irônica: “Bah, estamos na Disney!”.  Reagindo à projeção de algumas imagens anti-capitalistas, ela não poupou: “Bah, capaz que ele anda de carro popular!”}.

O humor ácido e esperto fazia com que o cara relativizasse a intensidade das emoções sugeridas por  canções que ele ouvia desde sempre. Desde muito antes de ser o que agora é. Junto com as canções vinham imagens incríveis que, graças a Deus, tiraram da sua boca o gosto amargo que, anos atrás, o filme deixara. O LP duplo sugeria muito mais do que o filme mostrou. O show fazia justiça.

Vamos dar um FastForward de duas horas, ok? O que o cara sentiu durante o show, só ele sabe. Se é que sabe...

Na tumultuada saída do estádio, ao ser perguntado sobre o que havia achado, o cara copiou a persona da filha e metralhou algumas gracinhas: “foi o power point mais caro que eu já vi”, “banda cover de luxo”, “Cirque du Soleil amador”... Obviamente não era o que ele pensava, mas o cara não queria falar sério nem ser sincero. Não agora. Para ele, o show ainda não havia terminado. Ainda estava concentrado, submerso. As gracinhas eram uma forma de manter o modo invisível ligado. Ele reconhece seus defeitos e o efeito dominó: quando a coisa fica séria, apela para o humor. Dera à sua banda um nome jocoso, apesar da seriedade com que a encara; é a coisa mais importante do "mundo lá fora". As duas coisas mais importantes do "mundo aqui dentro" estavam ao seu lado no show. Uma de cada lado. Mundo lá fora, mundo aqui dentro. O cara é um especialista em muros e grades. Mas é um grande amante das pontes e das travessias.

Ao fim de duas horas, sua cabeça estava cheia de “caracas”. Como se ela fosse um viveiro e os caracas  fossem pássaros excitados batendo asas num espaço bem menor do que o céu. Não queria que fugissem, mas queria vê-los voar. O que teria perdido se houvesse desistido no início, no engarrafamento da chegada? Lembrou do título de uma canção: I Forgot More Than You’ll Ever Know . Teria perdido mais do que muita gente jamais terá.

O cara ouviu um bater de asas, eram caracas voando:

Caraca! Os dois momentos mais intensos do show foram instrumentais: uma musica paranoica e um solo épico!

Caraca! O show não teve concessões: seguiu o programa e não deu bis!

Caraca! Nunca mais tanta gente se reunirá para ouvir canções de temas tão intensos nesta cidade tão longe demais!

Caraca! Ele desafina bem pra caralho!

Caraca! Ele é o melhor pior baixista do mundo de todos os tempos!

Caraca! O que será que aqueles olhos fundos enxergaram de lá pra cá, na contramão, do palco pra plateia? O que aqueles olhos viram dos anos 60 até este inicio de século? Estes olhos que estão no olho do furacão da música popular planetária há tanto tempo, o que viram? 


Incontáveis caracas seguem dando asas à admiração de tantos anos. O cara viu o cara. Duas vezes. Dez anos entre elas. Em dois estádios onde o cara também viu vários grenais. Estádios de dois clubes campeões mundiais numa cidade longe demais das capitais. Espelhos, espelhos, espelhos... o que o ser humano via antes deles?


03abr2012
Caraca, cara! Viajei e quase esqueci: abraços!

CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 42


(*) Estranho mundo em que "O Que Estou Vendo" virou legenda padrão para fotos postadas com imediatismo arrasador. Não estou julgando, só tentando entender. 
Resolvi postar a demo de Bora para  mergulhar, a meu modo, no espírito destes tempos. A legenda poderia ser "O Que Estou Gravando".

Ao contrário das fotos filtradas de paisagens que parecem ter passado batom, esta demo não têm corretores. Na veia, sem dourar a pílula. É crua, embrionária. Gravei em casa, tentando não derrubar a erva do chimarrão no laptop, salvando meu cachorro da morte por enforcamento no cabo do violão, com a TV sem volume parada em algum canal esportivo (como uma lareira sem calor, um docinho para os olhos). Dispersão concentrada, concentração dispersa. É assim, neste caos amigo, que gosto de trabalhar. Tenho fé no discernimento dos "de fé". Eles saberão ouvir as potencialidades e relevar as imperfeições dos primeiros passos desta criança.

Bora foi a primeira canção que a sanfona me trouxe. Parece ser do time de Olho do Furacão. Ambas misturam a percepção de um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar com a esperança de que novas oportunidades surgirão dos escombros, das ruínas, do farelo. Não sei que rumo ela vai tomar, se um dia haverá uma versão "oficial". Engenheiros do Hawaii? Pouca Vogal? Banda de Pífaros de Caruaru? Filarmônica de Berlim? Seria como decidir o curso superior de um bebê que ainda está na maternidade.

Nesta gravação, optei por simular o formato power duo do Pouca Vogal. Duas vozes, violão e sanfona. Bumbo, pandeiro e prato disparados com os pés. Gosto das especificidades de cada formato. As limitações mais motivam do que inibem minha escrita musical. Já era assim nos tempos de power trio dos EngHaw. 

(*) Desde sempre me perguntam sobre as mudanças que, com o tempo, acontecem no processo criativo. Sempre respondi que, apesar de ter amadurecido (menos do que gostaria) e envelhecido (mais do que gostaria) escrevia como sempre escrevi.

Talvez eu deva rever esta resposta a partir da entrada em cena dos meus livros. Eles (em especial NAS ENTRELINHAS DO HORIZONTE) colocam o compositor em outro patamar, livre de alguns compromissos, comprometido com outros desafios. Se isso é ou será notado pelas pessoas, o que elas acham ou acharão disso, já não me diz respeito. Foge ao meu raio de ação. Tomara que faça sentido. Ao  menos para quem interessa. Ao menos para quem se interessa. Ao menos o que interessa.

(*) Pessoas “do ramo” aconselham a não mostrar demos... faz sentido... mas ao chegar em casa depois do show do Roger Waters, The Wall, fiquei ouvindo as demos dele. Também fez sentido.

um abraço é uma ponte
que ele dure 
(que ela nos leve)
até a próxima terça
27março2012




CANÇÃ(*) C(*)M N(*)TA DE R(*)DAPÉ - 41

  
ela sabe muito bem o que quer
ela sabe o que precisa fazer
e vai à luta, não escuta ninguém

ela sabe muito bem o que é
que se espera de uma mulher
mas não quer nem saber
ela manda ver

ela sabe muito bem o que quer
ela sabe o que precisa fazer
e vai à luta, não escuta…

…a maioria esmagadora voz da razão
bom senso, uníssono ensurdecedor
na lua cheia ateia fogo às próprias vestes
só pra acordar de bom humor

pra enfrentar o que der e vier
só a força de uma mulher
que sabe muito bem o que quer

e ela sabe...ela sabe…ela sabe
e não quer nem saber

Mais um texto que começa numa caminhada. Um olho no minúsculo teclado do celular, outro no campo minado por buracos e bosta de  cachorro. Deja vü. Não me incomoda a repetição, até gosto de afinar minha percepção para captar as sutis diferenças entre ciclos que se repetem, aparentemente iguais. Aparências...

Mas, afinal, o que eu escrevia na minha caminhada? Respondia, por email, a um convite do jornal Zero Hora. Em matéria que sairia no Dia da Mulher, 8 “personalidades” masculinas escolheriam uma mulher que admiram. Imagino que, todos, gostaríamos de citar uma alguém do nosso cotidiano: mãe, esposa, filha... Mas, para o leitor, seria um desagradável Momento Maguila (o boxeador que, nas entrevistas depois das lutas, só falava dos patrocinadores). Por isso nos foi pedido que escolhêssemos mulheres públicas e, ficou subentendido, do nosso campo de atuação.

O texto abaixo é o que mandei. Escrito numa caminhada (não fui atropelado, não tropecei em buracos nem pisei em detritos de nenhum animal; mas, devo confessar, meti a cabeça num galho de árvore que mandou meu boné para longe).

Sou fã das mulheres, em geral, e da Joni Mitchell, em particular. O talento e a lucidez desta canadense de físico frágil deixaram marcas na música popular do planeta. Mesmo que muitas vezes a paternidade (ops, a maternidade!) dessas ideias não seja reconhecida. Ela transitou com maestria da música country ao jazz. Em se tratando de cultura americana, não é um caminho curto. Nem suave.

Tudo é mais difícil para elas. A indústria cultural não é exceção. É mais um dos inúmeros campos férteis para o reducionismo sexista. São poucas que conseguem tomar as rédeas de sua própria carreira. Joni Mitchell conseguiu.

Além de incrível compositora (de letra e música) grande cantora e instrumentista muito interessante,  ela  ganha pontos comigo porque, em certo momento da sua carreira, montou uma banda que incuía o guitarrista Pat Metheny e o baixista Jaco Patorius. Dois gênios. O primeiro, obcecado por controle. O segundo, um rebelde incontrolável. O que aconteceu com a banda? Ela dominou e os dois “piaram fino”. Tá certo, tem que ser assim mesmo. O poder é delas!

Depois de enviar o texto, aind'andando por POA, comecei a imaginar qual seria a mulher escolhida por cada pessoa que eu via na rua. Um exercício engraçado, ainda que propenso à generalizações grosseiras. Difícil fugir do estereótipo quando só se conhece alguém por um olhar de segundos.

Alguns adolescentes de pele pálida e cabelo lambido (ainda há emos em POA) eu imaginava que escolheriam aquela atriz que faz filmes de vampiro e tem cara de quem recém acordou. O mestre de obras do prédio em construção, eu imaginava escolhendo a Rita Cadilac. O cara que passou por mim tocando flauta doce (ainda há hippies em POA), deixando um cheiro suspeito no ar, escolheria Janis Joplin. 


Dilma Roussef fez muito sucesso na minha pesquisa imaginária. Madre Tereza de Calcutá teve um voto. Empatou com aquela francesa grisalha do FMI. Bah, a Xuxa teria tantos votos anos atrás! Estranho: nada, também, de Ivete Sangalo! Talvez tenha havido problema na imaginária contagem dos votos imaginários.

Quer votar? Os comentários estão aí pra isso. Estou curioso...

Parodiando o apresentador de TV que termina seu programa mandando abraços para “gaúchos e gaúchas de todas as querências", mando abraços aos homens e mulheres de todos os sexos!
20mar2012
primeiro dia do outono